Se você nunca ouviu falar em filmes como “Um tiro na Estrela Vermelha”, “Rancho Branco” e “Pinochet, Salve! Salve!”, ainda é tempo. Finalmente veio à tona a obra de Onofre de Malba.
Nunca, em toda a história, alguém se divertiu tanto com o conflito de classes quanto o cineasta Onofre de Malba. Falecido no mês de outubro, com 15 filmes em sua carreira, este diretor deixou para o cinema um legado tão desconhecido quanto instigante. O motivo? Malba foi, provavelmente, o único cineasta de extrema direita da América Latina.
Radicado em Porto Alegre desde 1971, Onofre de Malba era natural do Chile e veio à capital gaúcha com o intuito de fugir da guerrilha de Almenbrán, um grupo extremista que pretendia derrubar Pinochet e todos os seus partidários forçando-os a comer matambres envenenados.
Nos cinco primeiros anos em que estudou o modo de vida dos gaúchos, o diretor logo descobriu um terreno fértil para realização de sua produção cinematográfica anti-comunista. Segundo Celso Lazaretti, o maior especialista em Malba ainda vivo, tudo começou durante um jantar no Pampulinha onde o cineasta conheceu uma alcatéia de deputados calvos. Ali surgiu a idéia para a realização de seu primeiro filme em solo porto alegrense, “O Reich é Tri, Tchê!”. Um tour de force de mal gosto que lhe rendeu 20 merréis e 45 ameaças de morte em hebraico.
Malba foi obrigado a desculpar-se publicamente e acabou sendo enviado para uma fazenda em Cruzeiro do Sul. Lá ele realizou uma de suas obras mais profundas, classificada como “ultrajante” pelos intelectuais da época: Marx Foi Bicha. No filme, um épico de 3 horas, o próprio cineasta interpretou o filósofo Karl Marx, onde demonstrava na prática como fazer um ensopado de crianças. Embora o filme tenha virado matéria de capa do Correio do Povo, não deixou de ser mais um bombástico fracasso comercial.
Derrota após derrota, Onofre de Malba seguiu seu caminho de pedras ao longo da década de oitenta. Segundo Lazaretti, este foi o período mais criativo de sua filmografia. Casualmente, também marcou o pior episódio de sua carreira, quando realizou um clipe não autorizado para Kleiton e Kledir, chamado “O Grito do Morcego”. Malba foi julgado culpado. Como pena, foi obrigado a deixar seu bigode crescer por cinco anos.
O cineasta só foi libertado em 1992, no mesmo período em que foi realizada a ECO 92. Malba classificou o evento como “mentira verde” e entrou em decadência absoluta ao tomar uma piña colada com clorofila.
Seu falecimento, ocorrido no mês de outubro de 2007, não foi noticiado e seu cortejo fúnebre contou com a presença de um pequeno grupo de amigos e donos de revendas de jet-ski de Porto Alegre. Nenhum familiar esteve presente, segundo Lazaretti.
Assim, pode-se dizer que a herança cinematográfica de Malba tornou-se obscurecida pela ação do tempo. Tudo que restou de sua memória foram seus bonecos vudu, vendidos como malabares a R$49,90 no Fórum Social Mundial. Justiça seja feita.
Filmografia Selecionada:
Direitos Humanos para Humanos Direitos – 1973
A Verdade sobre o Caso Daut – 1989
Maluf, meu Amigo - 1986
Alle communists sind Bastarde - 1980
Metralha o Povo que o Povo Gosta – 1984