poeta, contista, jornalista, roteirista, desenhista,
tradutor e produtor musical.
nasceu em porto alegre. foi o líder do histórico fanzine eletrônico "cardoso online". é autor de "cavernas & concubinas”, e participou das coletâneas "troco", "dentro de um livro", "contos de bolso" e "contos do novo milênio". participou da segunda edição do projeto "na tábua", de paulo scott e fábio zimbres. QUALQUER coisa, clique aqui.
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MUSCULÊUTICA & ESQUELÉTICA
1. Musculêutica
Passo a passo na Praça da Alfândega. Sobrevôo pessoas de sobretudo, passo a passo, desdenhando tudo à volta. Apresso o passo e, sobretudo me ultrapassam. O fim do dia desenhando tudo à volta. No vento, pó pedra e sujeira. Queria estar na Medianeira. Pedra no rosto ainda é pouco. Areia nos olhos vira fogo – se pisco me queimo. Se queimo, me sujo. Se sujo, não durmo. Se não durmo, não como. Se não como passo a vez no tabuleiro de xadrez.
Alguns mudos, de mãos dadas. Trocando apenas Esparta por Atenas – olhares e bofetadas. Folhas verdes levantadas. O som seco das pegadas. Motoboys nas calçadas conversam sobre seu cotidiano. Um se chama Mariano, mas os outros não dão bola. Crianças fogem das escolas e constroem seus castelos nos fliperamas. Dormem algumas em suas camas. Outras tantas nas esquinas.
A grande vitória é não ter vergonha. Nem aquele quando sonha com espartilhos e o aspartame da tua boca. Nem aquela velha louca que às vezes vende incenso. Desperdício é um consenso de quem é pouco exorbitante. Quanta gente ignorante perambula por aí. Distraída pra vida pega um bonde pra Sapucaí. E eu aqui, sozinho na cidade. Mas isso não traz mais nenhum sabor de novidade.
Atravesso meu destino sem carregar nenhum fardo. Nenhum peso me freia, nem um gole me tonteia. Alguns dias me cansam e alguns me cegam. Quantos de vocês me carregam? Quantos não carregariam? Passo a passo continuo. Sigo frio pelo meu canto. Não te encontro, não te tento. Me procuras por enquanto. Mas eu sei que acaba o encanto. Como a água e a guerra fria.
Leva a sério cada linha? Mas que pena, eu diria. Essa trava não permite que tu veja a cor do dia. Mas voltando à vaca fria: não, não, isso não é nada. É apenas poesia.
2. Esquelética
Oh, santo, dai-me forças para esquecer cada flor que roubo dos teus jardins nos bancos dos coletivos. Incentivos que servem os subúrbios distantes onde habitam os meus hábitos e desejos. Dai-me alimentos, sustentos e poucos sustos, que de muitos já estou cheio. Faz-me forte e disposto, subtraia-me os desgostos que se desenham nas tempestades por trás dos montes. Dai-me serenidade nas frontes de batalha, livrai-me da mortalha e dos beijos sem sabor. Dai-me um grito de sorte, um sorriso de morte, alguma coisa sem cor. Algum algo, algum amor.
Oh, grande amigo de horas tristes, rabisca do teu caderno meu telefone e me liga quando eu estiver acordado. Mantém-me sedado e feliz, leva-me pra longe da matriz do meu choro, ensina-me outro nome pra agouro, pra casa não voltes com desaforo. Se me permites te digo: três tigres prum prato de trigo. Matei todos sem muito esforço, para que apareça mais um eu torço – quero ver até onde agüenta, quero ver quantas vezes mais me tenta, o chifrudo. Quero ver se tem nervo e audácia, se não é tudo falácia, mal-cheiro, falta de ter o que fazer. Se tem comigo mesmo tanto tempo pra perder.
Oh, primo, trinta e cinco são meus nomes, não me compres pelo que valho nem encontres comparações. Sue meses de janeiro, nade sempre o ano inteiro mesmo que no inverno te dê frio. Ouve o conselho do teu tio, vai lá e marca o gol, esquece das casas de maio, esquece dos dias sem sol. Olha aquela nuvem lá parada, faz uns três dias que não se mexe: acho que vai chover. Olha aquele cachorro na prateleira, é verde e sanfona, nos vê desconfiado e tem dois pregos na parede. Faça o que eu digo e não ouça mais ninguém, quebre os discos do Engenheiros e vá pra Sananduva, não se atreva a tomar Mirinda Uva, especialmente com cachaça. Não ouça o que eu digo - faça.
Oh, santo, dai-me olhos de aço e pele de seda, falai-me sílabas tônicas sussurradas em ouvidos. Sujai-me borrados de maquiagens doces, suores perfumados e abraços intermináveis. Matai-me batidas cardíacas a mais de cem, dedos pequenos pelas espáduas, chuvas finas nos cabelos e mais nada. Contai meus passos nas escadas, evitai minhas vontades de elevador. Deixai meu verbo bem flexionado sem a ajuda de um professor. Por fim, Porfírio, e a resposta? Ela está só no leitor.
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