nasceu em porto alegre, mas mora em guaíba. é bacharel em letras e
professor de literatura brasileira. recebeu diversos prêmios
literários, entre eles, o prêmio guimarães rosa, em 1994, e o prêmio
luiz vilela. foi finalista do prêmio jabuti, em 2001. alcançou o
primeiro lugar no concurso nacional de contos josué guimarães, em 2001.
é a sua estréia no gênero poesia.
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Vizinha
Toda a vez que ela pedia pão e leite
algo como um copo d'água
fazia globo da morte na tampa à rosca da língua.
A manhã já havia se equilibrado
mas coitada da manhã
e ela pendurando as compras num caderno
que no fim do mês eu pago.
Quando ela vinha com o peixe
enrolado num jornal
era imaginar que aquilo enrolado no jornal
era peixe
para começar a senti-la esquentando o umbigo
(em fogo baixo
senão queima).
Depois, era à tardinha
e ela varria os fundos de casa
e havia vento e folhas
e cabelos como na metamorfose da mulher-gorila
e tudo porque um seio.
E era imaginar assim assim,
e já ia ela colhendo a trévoa
que o pomo de Adão recita.
E se anoitecia e ela vinha à janela
fechar a janela
valia a pena ir até o fim da rua
e depois voltar pra casa
imaginando que o copo d'água
que ela levava pro lado da cama
era para alguém beber depois da reza.
E quando ela apagava a luz,
valia a pena no escuro
imaginar uma porção de coisas
como por exemplo um criança que se afoga.
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escute o poema de altair martins aqui

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