"Viveu, eu não sei quando,
talvez nunca...
Mas o fato é que
viveu,
um rei desconhecido
cujo reino era o estranho Reino do
Interstício.
Era senhor daquilo que está entre a coisa e a coisa,
dos
intra-seres, daquela nossa parte
que fica entre vigília e o sono,
entre
silencio e palavra,
entre nós e a consciência de nós;
e assim um estranho
e mudo reino
segurou aquele rei misterioso
segregado da nossa idéia de
tempo e lugar.
Aqueles supremos desenhos que nunca chegam
a atuação -
entre eles mesmos a inação -
Não coroado, governa. Ele é o mistério
que
Fica entre os olhos e a visão, nem cego nem vidente.
Nunca teve fim
nem principio,
vazia estante sobre sua presença vã.
É somente uma fenda em
seu ser,
a caixa destampada que tem o não-tesouro do não-ser.
Todos pensam
que ele é Deus, menos ele."
(F. Pessoa)