Ficamos três dias no deserto pela primeira vez. Nos conectamos de uma maneira silenciosa, cheia de comoção pelo espantoso e vasto estático desse lugar vazio e assentado. Como diz o antigo dito africano: "deus fez o litoral para o homem habita-lo; e fez o deserto para o homem encontrar a sua alma".
Na vastidão kinética das curvaturas do deserto, a mente se espelha e se espanta por parecer estar nessa estratosfera mais rarefeita, onde o toque final da verdade mora menos distante. É como se sentíssemos ali naquele lugar todo-presente uma proximidade do vácuo que permeia o existir. Nos reenergizamos neste local de uma forma muito parecida com a que o mar nos reenergiza quando ficamos perto dele durante algum tempo. Mas enquanto os efeitos das marés limpam a nossa aura, os efeitos do deserto reconfiguram a nossa alma. É mais dentro. O deserto está no centro do Ser.
Deste lugar onde os Grandes Profetas ouviram as Grandes Palavras, vem um conhecimento que altera nossas partículas mais íntimas e nos traz um novo senso do silêncio que devemos deixar habitar nosso dentro. Assim, talvez, estejamos preparados para os espantos maiores que talvez venham com a desertificação do nosso mundo. Talvez estejamos com armaduras nos olhos para encarar a luz da nossa verdade mais luminescente, como sol ardente, no Saara.

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