Há duas semanas atrás voltei de uma jornada que mudou a minha vida em vários sentidos. Minha realidade foi mudada daquela forma como as coisas realmente relevantes da vida nos modificam. Nada realmente abrupto aconteceu na pele do meu cotidiano, mas sim um movimento tectônico nas camadas mais profundas da minha individualidade. Daqueles movimentos sonolentos que se mexem como gigantes adormecidos, dos quais as primeiras trepidações podem ser sentidas apenas há alguns meses daqui.
O fato foi simples: visitei Paris por 8 dias e Veneza por 5 dias - fato esse mais do que comum à minha vida, mais uma viagem. Mas foi uma dessas viagens especiais. Aconteceu ao lado do meu mais-que-amigo: Marcelo Noah. Na verdade Noah é uma espécie de parceiro de alma e de trabalho; um ser pulsante que mora na mesma casa que eu (mesmo que eu não a habite fisicamente) e que me faz brotar palavras diretamente do meu senso artístico - um belo estímulo para alguém que se auto-intitula (e às vezes é intitulado por outros) como poeta.
Creio que não só a minha realidade que foi modificada mas também a do Noah. Não andamos por aí sendo os mesmos. De forma diferente, nossa genética foi modificada. Eu, talvez, mais pelo abalo sísmico interno; ele, talvez, pelo jorro do magma e do enígma da verdade literária que brotava das pedras que são mais do que aparentam.
Mas não falo muito sobre os acontecidos em Marcelo. Do lado dele, eu deixo em aberto para que ele mesmo se pronuncie. Apenas contribuo com uma imagem que revela um pouco do que poderia ser traduzido como uma tomada da síndrome de Stendhal sobre o corpo consciente do meu parceiro. Novas lentes que fazem a literatura ser verdade, ter estatura de eternidade.
Mas justamente pela viagem e pelo viajante me fazerem brotar palavras que eu estou redirecionando o sentido desse blog e da minha escrita por estes domínios. É chegado o fim da era dos pequenos "ensaios-meio-passo" que podemos encontrar abaixo neste scroll; o fim destes pensos onde analiso assim de forma poética e patética uma realidade quase que abstrata, tentando extrair algum sentido maior do jogo de palavras e do jogo de imagens dos fatos menores e médios da cultura global. A partir de hoje vou registrar de forma livre minhas experiências, principalmente ao lado deste meu parceiro e mais-que-amigo. Como nossa jornada está evoluindo? Quais as descobertas? Quais as novas propostas e novos questionamentos? Colocar aqui em campo aberto o inconcluso e aquilo que se conclui. Lançar em documentação digital a prática física e metafísica de nossos entrelaçamentos.
Do lado dele (Noah), espero que haja respostas à partir do seu blog e, talvez, do seu programa na rádio Ipanema (Teorema 94.9). Espero que, assim, comecemos a criar no mundo uma teia de nossos pensamentos e, também, uma teia de nossos movimentos. Espero transformar esse blog numa espécie de registro do nosso trabalho crítico e criativo. Trabalho esse que está na dimensão da soltura, desse sentimento leve e pesado sentido pelos adolescentes que compelidos a fazer alguma coisa relevante acabam por se apaixonar perdidamente por algo, criando em si a semente do sofrimento cultivada na terra voluptouosa do amor-verdade. Apaixonar-se é preciso. Sempre e novamente.
Sobre o movimento tectônico mencionado acima que ocorre agora no âmago do meu sou, falo: àqueles que acompanharão esse blog - e neles incluo principalmente eu (o leitor mais assíduo de mim mesmo) - será revelado pouco a pouco as dimensões desse despertar sísmico, as qualidades e, também, força deste movimento vertiginoso na escala Richter. Que disso brote uma Árvore de Verdade.

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