Escrito pelo Dr. DRAUZIO VARELLA
[...] O intervalo livre de sintomas entre o último cigarro e o ataque de
nervos para acender o próximo é
chamado de período de latência.
Nos noviços esse período é longo;
um único cigarro pode manter a crise sob controle por uma ou duas semanas. O uso repetitivo, entretanto,
induz o aparecimento de tolerância,
fenômeno que encurta progressivamente a latência.
Enquanto os sintomas de abstinência já são perceptíveis a partir do
primeiro cigarro, a tolerância se desenvolve progressivamente no decorrer de meses ou anos. É ela, no
entanto, que mantém o fumante nas
garras do fornecedor.
Uma vez instalada, a tolerância
finca raízes sólidas nos neurônios
cerebrais. Depois de anos, quando o
ex-usuário julga haver subjugado o
vício e decide fumar apenas um cigarrinho, ela ressurge das cinzas: em
poucos dias ele estará fumando como antes; senão mais.
Quem já fumou, como eu, tem direito de considerar-se ex-usuário de
nicotina, ex-dependente jamais. Em
algum canto do cérebro, a serpente
da dependência estará à espreita do
primeiro deslize.
Aqueles que conseguiram abster-se por apenas três meses ou passaram
décadas em abstinência, quando recaem voltam com a mesma rapidez ao
número de cigarros diários anteriormente consumidos. A dependência de
nicotina é uma doença crônica, incurável, o cérebro do fumante nunca
mais voltará ao estado original.
A farmacologia não conhece droga
que cause tamanha dependência
química.
A nicotina não vicia por causar
sensações inacessíveis aos mortais
que enfrentam o cotidiano de cara
limpa. Inundar o cérebro com ela
não faz você experimentar a alegria
do álcool, a onipotência da cocaína, o
relaxamento da maconha ou as visões do LSD. Não existe barato nem
viagem. Você fuma apenas para
aplacar as crises de abstinência que
a própria droga provoca a cada trinta
minutos.
O único prazer de quem fuma é
sentir a paz de volta ao corpo suplicante, até que a próxima crise bata à
porta para enlouquecê-lo. Parece invenção de Satanás.

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