Chimia Geral

Trinta em Transe Poesia

Camila Shenkel

O projeto Trinta em Transe foi uma iniciativa da Loop Discos, em 2006, com o objetivo de promover o registro em áudio de trinta e três poetas representativos da cena literária porto-alegrense. A organização desta antologia sonora ficou a cargo de Fabio Godoh e Marcelo Noah, poetas e produtores culturais que já há algum tempo desenvolvem atividades relacionadas à literatura nos meios radiofônicos. Procurando mesclar nomes consagrados com a nova safra de jovens poetas da cidade, Trinta em Transe buscou, sobretudo, afirmar a existência de um pulsante cenário literário voltado à tradição sempre renovada da poesia na capital gaúcha. Além disso, 2006 é o ano em que celebramos o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana; nada mais oportuno, portanto, que tenhamos brindado esta data com o lançamento deste disco-antologia na 52º Feira do Livro, a qual foi totalmente dedicada à poesia. Assim, o projeto Trinta em Transe visou a ampliar e diversificar o escopo da produção poética local restrita ao suporte impresso, assim como estimular sua absorção por parte da sociedade, seguindo a tendência literária mundial na qual cada vez mais os poetas transitam do livro para suportes em áudio.


Escute todos os poemas de Trinta em transe aqui: 

12/20/2006 | Permalink | Comments (3)

Passo Fundo em chamas!

O Nacional, Passo Fundo, 5 de dezembro de 2006.

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Três em Transe

                            Por Daniel Bittencourt

Trinta em Transe não somente tematiza o tempo no colapso da metafísica que se seguiu à morte de Deus como ômega, mas também faz do próprio meio a mensagem, no sentido de que sua função é realizar uma destruição heideggeriana do quadro poético de referência tradicional, concretizando a redução fenomenológica da perspectiva poético-visual mediante a violência da sonoridade plástica, e deixando o ouvinte despido, como Kierkegaard, em seu lugar origem, no qual o tempo é ontologicamente precedente ao ser.

Não entendeu? A idéia é mostrar que a poesia não tem formatos. Que a poesia não é o livro, não é o papel, não é a letra, nem a tinta da caneta. Poesia é vida, é vivência, é ser dentro do humano. É contravenção, aversão à versão. É o verso no universo do diverso.

Não entendeu ainda? Então leia a entrevista que o Segundo fez com Fabio Godoh, que, junto com Marcelo Noah, idealizou o projeto Trinta em Transe, em que poetas comportados e outros desamarrados gravaram um CD com poemas próprios em suas próprias vozes.

Os dois estiveram neste domingo participando, ao lado do jornalista, tradutor e poeta Roberto Justi (o Bocajão, que tem um poema no disco), da Feira do Livro de Passo Fundo, apresentando para a cidade o que é o Trinta em Transe.

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Daniel Bittencourt: Como surgiu a idéia de fazer um disco de poesia?

Fabio Godoh: Eu e o Marcelo tivemos um programa na Rádio da Universidade durante dois anos. E nesse programa, a gente passava textos lidos pelos próprios autores. Só que por motivos estéticos acabamos sendo expulsos dessa rádio. Então, resolvemos tentar algo na rádio Ipanema, onde conseguimos um espaço para um programa sobre literatura. O negócio foi rolando, e já que o diretor da rádio, o Eduardo Santos, tem uma gravadora, associamos as idéias e decidimos produzir um registro do que estava acontecendo em poesia na Capital, mas fora do lance do livro, do formato livro. A gente pensou que justamente no Brasil, onde não existe a tradição da leitura, seria interessante lançar um projeto como esse.

Daniel Bittencourt: E como vocês juntaram esses poetas?

Fabio Godoh: Nós pegamos uma metade de poetas laureados, com livros publicados, e uma outra metade de poetas inéditos, mas que há algum tempo desenvolvem poemas em suporte de áudio. Sabe, isso é algo tão novo, que o próprio estatuto da Câmara do Livro proíbe a venda de discos na feira. Então, tivemos que entrar com um processo justificando o trabalho, e conseguimos a liberação.

Daniel Bittencourt: E como vocês chegaram até o Roberto Justi?

Fabio Godoh: O Bocajão é um mito de uma geração. Pelo menos em Porto Alegre. No final dos anos 60, ele participou ativamente do cenário cultural, atuando como uma espécie de cérebro por trás de grandes artistas, assim como o Rogério Duarte na época dos tropicalistas. Além disso, ele tem uma produção em poesia que é bem interessante, e por isso nós o chamamos, porque ele é representativo de uma postura poética que em Porto Alegre não existe mais. A maior parte dos poetas porto-alegrenses, digamos, desde os anos 80, são uns "poetas bobões". E o Bocajão tem uma coisa beatnik, rock n' roll, que está muito mais conectada com o Paulo Leminski, por exemplo, do que com o Mario Quintana.

Daniel Bittencourt: E a questão do texto? Você disse que poesia não é o texto.

Fabio Godoh: Uma das críticas que a gente recebe, e que é uma crítica que a gente buscou, porque toca em um ponto de imbecilidade cultural, é essa coisa da poesia especializada, elitista. É o que Henry Miller fala: "Trata-se de uma aristocracia literária". E nós tentamos romper com isso. Por exemplo, quando colocamos o seu Armindo Trevisan, que representa o máximo da poesia acadêmica, livresca, ao lado do Carlinhos da banda Bidê ou Balde, que é um cara completamente não-especializado, as pessoas costumam ficar chocadas, pelo menos em Porto Alegre.

Daniel Bittencourt: Mas a idéia é mesmo causar choque para sair do marasmo?

Fabio Goodh: Sim. É uma espécie de relativismo mesmo, só que não no sentido aristocrático, mas no sentido de existirmos em forma de produção. É o contrário do modelo livresco. Por exemplo: a estrutura da feira do livro daqui de Passo Fundo é igual a de Porto Alegre, só que em âmbito menor. É uma caretice pura! As pessoas não se interessam em ler. Só que o grande lance é não negar a estrutura, e sim penetrar nela, tentando lançar um vírus. Essa é a nossa idéia.

Daniel Bittencourt: E como vocês tentam isso?

Fabio Godoh: Por exemplo, na última feira do livro de Porto Alegre, promovemos uma grande queima de livros no final do evento. Divulgamos no nosso programa de rádio, dizendo: "Leve aquele livro de poesia que você nunca leu e que nunca vai ler, e jogue na fogueira". E isso causou interpretações das mais extrapolantes, do tipo: "Ah, esses caras são uns bárbaros que atuam contra a civilização". Na verdade, o que a gente queria era dar um choque no público que vai à feira do livro, para mostrar que literatura não é banquinho e indicar leitura. Literatura é um "modus operandi".

Daniel Bittencourt: A literatura é o próprio ser humano, porque você vai escrever conforme suas próprias impressões...

Fabio Godoh: Ou mesmo não escrever. Sócrates fundou toda a estrutura do pensamento ocidental e não escreveu uma linha. O que queremos fazer, portanto, é tirar a poesia do formato chato e previsível que ela assume quando se resume a si mesma. 

12/19/2006 | Permalink | Comments (0)

1º Mundialito de Poesia

Tenho certeza de que você nunca ouviu falar em slam poetry. De onde vem minha convicção? Simples, antes de escrever esse artigo liguei para sete dos poetas mais antenados do país e perguntei se tinham idéia o que significava a expressão. Apenas um disse ter uma vaga idéia.

Trata-se de um evento onde poetas, em performática, lêem ou recitam suas poesias num esquema diferente dos tradicionais saraus; no slam poetry, o que está em pauta é a competição. Poetas disputam os votos de um júri escolhido na hora, entre as pessoas que estiverem na platéia.

Reza a lenda que a idéia foi implementada no ano de 1984, no bar Get Me High Louge, em Chicago, por Marc Smith, mas só ganhou notoriedade a partir de 1987, quando as competições começaram a se intensificar, até que em 1990 ocorreu o primeiro National Slam.

Pode haver regras, limitações temáticas, de palavras ou expressões e de tempo; mas o estilo livre prevalece. Geralmente, os candidatos realizam suas atuações com base num texto já ensaiado, mas os finalistas deverão improvisar a partir das sugestões dadas pela platéia; daí sim sairá o vencedor. Como se vê é nítida a influência da cultura hip-hop sobre a slam poetry, não é à toa que até hoje, a maioria dos poetas mais conhecidos desse novo gênero são aqueles que assumem o estilo rapper (embora haja os que o evitem).

Na última sexta-feira, fui convidado para assistir o que, segundo seus promotores, os poetas gaúchos Fabio Godoh e Marcelo Noah, deveria ser o primeiro slam poetry do Brasil. Infelizmente, por razões técnicas (parece que o formato do evento não era bem o aprovado pelo Solar dos Câmaras, um espaço público que abriga recitais e eventos mais comportados do que o pretendido pelo Fabio e pelo Marcelo), o evento não se realizou; ou melhor, se realizou em parte, já que os poetas executaram suas performances na calçada do próprio espaço e o prêmio foi para Luiz Carlos Sadowisck.

Na minha opinião, mesmo na informalidade, o slam aconteceu.

Outros eventos do tipo estão programados para janeiro de 2007, com a promessa de ocorrer sob condições menos adversas e registro em DVD.

Fabio Godoh disse que a idéia surgiu durante a gravação do CD "Trinta em Transe" (Porto Alegre: Loop Discos, 2006), que reúne trinta dos poetas mais expressivos da literatura gaúcha contemporânea, disse também que para as próximas edições do evento ele e Marcelo Noah ainda estão buscando uma expressão que não seja essa, slam poetry, mas algo em português.

Hoje, com toda a tecnologia disponibilizada a baixo custo, há, na Inglaterra e Estados Unidos, poetas que sequer cogitam de publicar, querem é gravar (ou filmar) suas poesias e veicular na rede, em CD, DVD e por aí vai. Curioso. Uma geração de poetas que não se preocupa com livro, preferem a oralidade e a imagem (o que não deixa de ser uma potencialização da egotrip que marca todo artista) ao texto escrito.

Aproveitei o tema e pedi a opinião de dois poetas que, na minha opinião, têm na oralidade uma espécie de exuberância de seus textos: o carioca Chacal e o paulista Marcelo Montenegro. Chacal me disse que não condena, vê nessa experiência um retorno à celebração da oralidade, aproximando (não é por outra razão que a idéia nasceu nos primeiros anos do rap) a poesia do que já era a poesia do rap. Claro, ele faz questão de frisar, é preciso perceber o caráter de brincadeira da slam poetry, porque não é possível julgar se algo é melhor ou pior, o que conta, na verdade, é o momento: naquele momento e para aqueles juízes, há um vencedor, mas nada disso pode ser levado tão a sério.

Já Marcelo Montenegro ressalta toda a qualidade que ainda se mantém no espaço da poesia (o caótico, a transgressão da linguagem) e que a torna quase o único (porque último) espaço artístico de plena liberdade, dispensando por completo a possibilidade de ranking, de competição. Submeter a poesia à competição é condicioná-la, é enfraquecê-la.

Confesso que não pretendo submeter nenhum dos meus textos a qualquer tipo de competição, embora seja um entusiasta dos encontros poéticos que subvertam a pasmaceira dos saraus de formato mais clássico e outros rococós do gênero, mas admito que o slam poetry pode ser um modo eficiente de aproximar as pessoas da cultura da poesia (isso que segue campo de meia dúzia).

O fato é que a poesia está agregando as novas tecnologias, isso já acontece desde o final do século XIX (registre-se que todos os poetas que ouvi são artistas que misturam texto com outras mídias já há muito tempo). Se haverá competição, ou não... se o negócio é a sério, ou não... Bem, cada um que escolha o que fazer da sua arte. Não tenho dúvida que a poesia (embora poesia seja tudo e esteja em todo lugar) continuará sendo um bicho de sete cabeças, um rótulo estranho para a maioria dos brasileiros, letrados ou não, executada em espacho chic ou na calçada.

                               Paulo Scott, poeta e advogado

12/19/2006 | Permalink | Comments (0)

Infinita imbecilidade, não?

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O Rio Grande do Sul tornou-se uma província sem poesia. Hoje em dia, para ser poeta em Porto Alegre, basta que você seja imbecil o suficiente para jogar salada de batatas aos libertinos ou promover stripteases aos literatos. A ordem, pois, na bela cidade de Mario Quintana, foi completamente subvertida. E digo isso porque estive, durante a 52ª Feira do Livro, a absorver a saudosa atmosfera da Praça da Alfândega, de modo que regressei a Pernambuco com apenas uma certeza: Fabio Godoh e Marcelo Noah, dois piolhos megalomaníacos que perambulam pela cidade ameaçando o suicídio e espalhando ambigüidades, devem, de uma vez por todas, arder na mesma fogueira da qual Sartre não deveria ter escapado. Por quê? Simplesmente por terem falado e agido como idiotas.

A começar pela organização do disco Trinta em Transe, que reúne uma meia dúzia poetas relevantes, como Luiz Coronel, Armindo Trevisan e Glênio Fagundes, misturados a um grupo que classifico como de "verdadeiros suínos", os quais, liderados por Godoh e Noah, apresentam-se como "Geração Nave Vazia", que, a bem da verdade, não merece nada além de uma longa cuspida no olho. Pelo que andei lendo por aí, o principal postulado do grupo (que é formado por Patrick Matzenbacher, um piadista relaxado; João Mognon, um místico toleirão; e Diego Petrarca, um débil displicente; além, é claro, dos citados Godoh e Noah) é o que eles intitulam de "Poesia Totalitária", ou seja, uma babaquice retrógrada e pseudovanguardista que defende nada menos que a abolição da poesia.   

Pois bem, tentemos compreender o que significa esse amontoado de disparates. Segundo o pesquisador francês Mesieur Dupré, "a tentação do silêncio é realmente forte para os chamados antipoetas. No entanto, estes jamais poderão repudiar a poesia sem que se tornem defensores da pior poesia possível". Eis, portanto, uma explicação plausível para a lamentável procissão de suínos chamada "Nave Vazia". Em outras palavras, pura incompetência e falta de talento. Portanto, caro leitor, reflita comigo: por que não enfiá-los, e bem enfiados, no fundo de um manicômio de segurança máxima, até que resolvam falar como gente comum, igual a nós? Por que não submetê-los ao eletrochoque, até que fiquem impossibilitados de sair por aí fazendo "cué, cué, cué" no ouvido de pessoas sensatas e apreciadoras da verdadeira arte?

Querem um exemplo? Pois bem. Durante a minha estada em Porto Alegre, tive o desprazer de assistir a Fabio Godoh grunhir a seguinte asneira em um dos canais da televisão local: "O verdadeiro poeta sabe que a poesia não existe. Se existisse, não haveria mais nenhum poeta". Olha, caro Godoh, é preciso que alguém lhe dê um belo pontapé na bunda (pois é lá onde o senhor esconde o seu intelecto) e lhe informe que o "nonsense" não significa nada além de um vírus sintético desenvolvido para inocular em pseudopoetas da sua linhagem, de modo que estes sintam-se, enfim, poetas, e, dessa forma, sufoquem o complexo de incapacidade gritante que os leva à imbecilidade. Ah, caro Godoh, o senhor por acaso já leu o novo livro do Marçal Aquino? Creio que não.

Por fim, e com efeito, devo referir que é sintomático que o Sr. Matzenbacher, o único participante do disco a merecer mais de uma faixa, tenha suas leituras, uma a uma, introduzidas pelos outros integrantes dessa quadrilha de carroceiros disfarçados de artistas. "Os imbecis costumam agir em bandos", diz o filósofo Olavo de Carvalho. E o Sr. Matzenbacher declama: "Infinite imbecilitè, non?" Sim! Infinitos imbecis! Eis a perfeita definição para essa corja de lunáticos que acham que, impunemente, conseguirão transformar a literatura em Pepsi-Cola. Pois bem, caro leitor, considero que chegou a hora de tomarmos a "lei" em nossas próprias mãos, e mandarmos esses sofistas caloteiros para o diabo que os carregue. Eis o meu protesto. Espero que vocês, pessoas de bem, se juntem a mim nesta cruzada contra a atual dominação da destrutividade abstrata.
                                                   
        Último de Azevedo, poeta e crítico literário

12/14/2006 | Permalink | Comments (3)

Geração Nave Vazia

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Estimado professor Último de Azevedo, devo dizer, em primeiro lugar, que um estupro linfático ocorreu em minhas meias. Com efeito, sofismar os arremates às groselhas pode, de fato, resultar numa dietética ópera transeunte, uma vez que ao desapropriarem certas vassouras veterinárias, as alcoólicas maçanetas menstruam seus sambódromos como quem relincha sabonetes midiáticos sobre alfaiates de macarrão espairecido. Da chimia em cavanhaques, pois, é que escorre a agricultura pederasta, assim como é no pastel legislativo que pestanejam as libidinosas ortografias assadas em uísque imobilizado, de maneira que trinta e três ventrículos de alçapão, em sal de pênalti, regozijam as alamedas entre um percevejo de mistério urinário e o pompom catedrático da soja: isto é, algo como ficção de bicarbonato perante um mastro de alfaces situacionistas.

No entanto, flambemos o xilindró do bermudão, execrando, dessa forma, as robóticas mariolas masoquistas contra o diabético bule da prevaricação. Todavia, se, como apetece aos memorandos extraconjugais, a esmagadora pediatria das novelas isossilábicas harmonizar o ranho isocrônico das bombachas sob rapsodos hipertrofiados, há de se vociferar que o edredom de compasso empírico estigmatize o cânone vesicular em dormitórios átonos como engraxates. Por outro lado, no início da barbatana, os tomates expiratórios mostraram tal clarividência cosmética, sob um soco de sogras moleculares, que acasalaram nasalmente uma gesta calcificada em dispositivos ululantes, aos quais já não é mais eleitoreiro plagiar a ingratidão intestinal. Assim, logo que o oráculo parricida do morango, nutriz de toda verruga resfolegante, batizar o beneplácito almoxarifado como "receptáculo de limonada em prosa", uma seita de vácuo postiço, na qual calcularemos o elixir da zoofilia, passará a pentear todas as queixas do mocotó futurista.

Por conseguinte, enquanto os temperos sociopatas de derivação enfisêmica, ou seja, corruptelas marxistas de teor partido-alto, encorajarem a assídua oxidação da glosa piramidal em orgasmos rançosos, a privatização azeviche dos tangos imobiliários declamará, sem os salames da glória, uma série de pizzas leprosas por organograma. Em síntese, um riacho de seios empíricos em louvor à onerosa bergamota racionalista da pança. Deste modo, a sinopse gauchesca dos subjuntivos pedófilos deixará de masturbar a frustração parnasiana dos sabugos de regar mula, mediante, é claro, uma âncora de azeite apoteótico. Doravante, só os hidróxidos de cantiga poderão uniformizar-se em cafetões aritméticos, no sentido equatorial do benefício. Por fim, caro professor Último, desplumar a bicicleta espermicida é, sem dúvida, ato de uma xícara plutocrática e ideogrâmica, uma vez que absorve o supletivo semáforo pernambucano sem justificar o leite trigonométrico da geografia fonológica. E, finalmente, a propósito das minhas inúteis galáxias hedonistas, onde afinal enlaçam-se as fezes do pudim, há que se dizer que a vó do cu é a maionese. Um lindo anarco-íris para todos.

        Fabio Godoh, antipoeta e estrategista sexual

12/14/2006 | Permalink | Comments (5)

manifesto trinta em transe

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olá ● o tema deste prefácil paracrítico é a crescente insistência da mente em apreender a realidade, reunindo em si cada vez mais mentiras para se tornar a própria realidade ● trinta em transe ● os sons são os órgãos da alma ● poesia sonora ● cantar silêncios, dizer o inexprimível, fixar vertigens ● clara crocodilo show ● a poesia é a voz dissidente que se insurge contra a superabundância insensata do material impresso ● jogo de pulsações ● é quando o poeta ultrapassa a realidade opressora do livro, proporcionando viagens adjetivas aos ouvidos ● trinta em transe ● a superioridade da prosa sobre a poesia é a mesma superioridade que dois velhos inteligentes ostentam sobre uma bailarina ao vê-la dançar ● cinema falado ● poesia como extensão do corpo, distensão do cosmos ● pois é poesia ● a vida inteira que podia ter sido e que não foi ● poesia totalitária ● a voz da voz que canta, dentro da voz que fala ● trinta em transe ● um poeta não é mais que a sua orelha ● nave vazia ● é quando o artista parece gente ● nervos de aço ● é quando o ouvinte se torna poeta ● a vó do cu é a maionese ● arco que vibra tanto para lançar longe a flecha, como para lançar perto o som ● abravanel laos ● palavras são fósseis vivos; cabe ao poeta reconstituir o animal e pô-lo a cantar ● terra em transe ● perante o poema escrito, a voz do poeta é libertação ● pornografia sancionada ● quintana reaparecendo no fim do corredor ● contém glúten ● a poesia é o sujeito da prosa ● só alegrias ● não há poema em si, mas em mim ou em lá ● paralelo trinta ● a voz humana tanto vibra para lançar perto as palavras, como para lançar longe o som ● winston baker ● poesia são todas as coisas nascidas com asas e que cantam ● batatinha quando nasce ● cada língua tem sua própria estrutura melódico-embrionária; já existe nela, portanto, o germe de uma música que expressa a alma do povo ● charles piercing ● o poeta escreve cego por linhas óbvias ● a vanguarda de viamão ● é sintomático que, na pós-modernidade, poesia e música fossem inseparáveis ● chimia geral ● se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que deus quis dizer com este mundo ● pasto ao coração ● a única coisa a fazer é tocar um tango argentino ● trinta e três ● a voz articulada do intelecto converte-se em expressão do corpo que sente ● coração de cotonete ● o assassino sabe mais de amor que o poeta ● cof, cof, ei ● a alegria é a prova dos nove ● sobras completas ● a arte é a dimensão anárquica da matéria onírica ● megafone para o mar ● corpo imortalizado em expressão timbrística ● trinta em transe ● corpo materializado em duração melódica ● noigandres ● a poesia é a voz da quarta pessoa do singular ● cabaré voltaire ● nave que vaga, navia naïve ● césar pereira ● enquanto houver poesia não vai haver poesia ● trinta em trâmite ● dissimular o estado de decadência em que chegamos seria o cúmulo da insensatez, pois é na língua, sobretudo, que se manifestam os primeiros sintomas ● ku klux pissalonga ● decididamente a favor do advérbio de modo ● bob é pop ● o verdedeiro rio grande do sul é pernambuco ● poema processo ● as relações naturais e outras tragédias ● algonauta ● só o trabalho sem diversão faz de jack um bobão ● zimzim urallala ● trinta em transe não somente tematiza o tempo no colapso da metafísica que se seguiu à morte de deus como ômega, mas também faz do próprio meio a mensagem, no sentido de que sua função é realizar uma destruição heideggeriana do quadro poético de referência tradicional, concretizando a redução fenomenológica da perspectiva poético-visual mediante a violência da sonoridade plástica, e deixando o ouvinte despido, como kierkegaard, em seu lugar origem, no qual o tempo é epistemologicamente precedente ao ser ● zanzibar zimzalla zam ● por que não grandes remessas de sopas de letrinha para as áreas de maior analfabetismo? ● nuestro norte es el sur ● cada um é a sua própria bola de futebol ● trinta em transe ● a minha liberdade termina onde começa ● antidicurvismo ● ave há, mas si na nave vá, só si pá ● martín fierro ● renunciei mil vezes à poesia e voltei a ela mil e uma ● abordagem laxativa ● surf, jiu-jitso, ferveção e muito pedantismo ● tigres tristes ● em vez de representações expressivas de uma substância tida por precedente a eles, os poemas em trinta em transe são agentes ativos em si mesmos, criando novas substâncias e embaralhando outra vez as cartas do destino ● o novo é o óbvio do ovo ● enquanto isso, os sabichões discutem se doce de abóbora não dá chumbo pra canhão ● maurizzio ● colorless green ideas sleep furiously ● nobres klaxons ● a arte é uma incerteza ontológica ● assim na terra ● de pé sobre o cimo do mundo, lançamos ainda mais uma vez o desafio às estrelas ● dá-me os óculos ● hoje não tem fernando pessoa ● take care, tem quem quer ● uma obra só não vale quando cumpre os propósitos do autor ● winterverno ● aqui nós lançamos a âncora na terra gordurosa ● tri em transe ● óleo da melodia barroca que me alimenta ● escuela del charque ● muito menos do que você pensa, muito mais do que você possa imaginar ● verbivocovisual ● a poesia existe nos fatos, o estado de bagunça transcendente ● zaum ● o crítico é mais severo crítico do crítico que o crítico do artista ● trinta em transe ● podes imaginar o que seja um mancebo apaixonado? ● nenhumzinho de nemnada nunca ● beto brant é quem tinha razão, qualquer coisa menos a lucidez, tá ligado? ● muito obrigados ● senhor deus, livrai o godoh do dadá ● aquilo que sobra da plenitude ● a violenta beat do agora-mundo gingada pelo intelectual dançarino ● olé!


                      fabio godoh & marcelo noah

08/03/2006 | Permalink | Comments (1)

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