O Nacional, Passo Fundo, 5 de dezembro de 2006.

Três em Transe
Por Daniel Bittencourt
Trinta em Transe não somente tematiza o tempo no colapso da metafísica que se seguiu à morte de Deus como ômega, mas também faz do próprio meio a mensagem, no sentido de que sua função é realizar uma destruição heideggeriana do quadro poético de referência tradicional, concretizando a redução fenomenológica da perspectiva poético-visual mediante a violência da sonoridade plástica, e deixando o ouvinte despido, como Kierkegaard, em seu lugar origem, no qual o tempo é ontologicamente precedente ao ser.
Não entendeu? A idéia é mostrar que a poesia não tem formatos. Que a poesia não é o livro, não é o papel, não é a letra, nem a tinta da caneta. Poesia é vida, é vivência, é ser dentro do humano. É contravenção, aversão à versão. É o verso no universo do diverso.
Não entendeu ainda? Então leia a entrevista que o Segundo fez com Fabio Godoh, que, junto com Marcelo Noah, idealizou o projeto Trinta em Transe, em que poetas comportados e outros desamarrados gravaram um CD com poemas próprios em suas próprias vozes.
Os dois estiveram neste domingo participando, ao lado do jornalista, tradutor e poeta Roberto Justi (o Bocajão, que tem um poema no disco), da Feira do Livro de Passo Fundo, apresentando para a cidade o que é o Trinta em Transe.
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Daniel Bittencourt: Como surgiu a idéia de fazer um disco de poesia?
Fabio Godoh: Eu e o Marcelo tivemos um programa na Rádio da Universidade durante dois anos. E nesse programa, a gente passava textos lidos pelos próprios autores. Só que por motivos estéticos acabamos sendo expulsos dessa rádio. Então, resolvemos tentar algo na rádio Ipanema, onde conseguimos um espaço para um programa sobre literatura. O negócio foi rolando, e já que o diretor da rádio, o Eduardo Santos, tem uma gravadora, associamos as idéias e decidimos produzir um registro do que estava acontecendo em poesia na Capital, mas fora do lance do livro, do formato livro. A gente pensou que justamente no Brasil, onde não existe a tradição da leitura, seria interessante lançar um projeto como esse.
Daniel Bittencourt: E como vocês juntaram esses poetas?
Fabio Godoh: Nós pegamos uma metade de poetas laureados, com livros publicados, e uma outra metade de poetas inéditos, mas que há algum tempo desenvolvem poemas em suporte de áudio. Sabe, isso é algo tão novo, que o próprio estatuto da Câmara do Livro proíbe a venda de discos na feira. Então, tivemos que entrar com um processo justificando o trabalho, e conseguimos a liberação.
Daniel Bittencourt: E como vocês chegaram até o Roberto Justi?
Fabio Godoh: O Bocajão é um mito de uma geração. Pelo menos em Porto Alegre. No final dos anos 60, ele participou ativamente do cenário cultural, atuando como uma espécie de cérebro por trás de grandes artistas, assim como o Rogério Duarte na época dos tropicalistas. Além disso, ele tem uma produção em poesia que é bem interessante, e por isso nós o chamamos, porque ele é representativo de uma postura poética que em Porto Alegre não existe mais. A maior parte dos poetas porto-alegrenses, digamos, desde os anos 80, são uns "poetas bobões". E o Bocajão tem uma coisa beatnik, rock n' roll, que está muito mais conectada com o Paulo Leminski, por exemplo, do que com o Mario Quintana.
Daniel Bittencourt: E a questão do texto? Você disse que poesia não é o texto.
Fabio Godoh: Uma das críticas que a gente recebe, e que é uma crítica que a gente buscou, porque toca em um ponto de imbecilidade cultural, é essa coisa da poesia especializada, elitista. É o que Henry Miller fala: "Trata-se de uma aristocracia literária". E nós tentamos romper com isso. Por exemplo, quando colocamos o seu Armindo Trevisan, que representa o máximo da poesia acadêmica, livresca, ao lado do Carlinhos da banda Bidê ou Balde, que é um cara completamente não-especializado, as pessoas costumam ficar chocadas, pelo menos em Porto Alegre.
Daniel Bittencourt: Mas a idéia é mesmo causar choque para sair do marasmo?
Fabio Goodh: Sim. É uma espécie de relativismo mesmo, só que não no sentido aristocrático, mas no sentido de existirmos em forma de produção. É o contrário do modelo livresco. Por exemplo: a estrutura da feira do livro daqui de Passo Fundo é igual a de Porto Alegre, só que em âmbito menor. É uma caretice pura! As pessoas não se interessam em ler. Só que o grande lance é não negar a estrutura, e sim penetrar nela, tentando lançar um vírus. Essa é a nossa idéia.
Daniel Bittencourt: E como vocês tentam isso?
Fabio Godoh: Por exemplo, na última feira do livro de Porto Alegre, promovemos uma grande queima de livros no final do evento. Divulgamos no nosso programa de rádio, dizendo: "Leve aquele livro de poesia que você nunca leu e que nunca vai ler, e jogue na fogueira". E isso causou interpretações das mais extrapolantes, do tipo: "Ah, esses caras são uns bárbaros que atuam contra a civilização". Na verdade, o que a gente queria era dar um choque no público que vai à feira do livro, para mostrar que literatura não é banquinho e indicar leitura. Literatura é um "modus operandi".
Daniel Bittencourt: A literatura é o próprio ser humano, porque você vai escrever conforme suas próprias impressões...
Fabio Godoh: Ou mesmo não escrever. Sócrates fundou toda a estrutura do pensamento ocidental e não escreveu uma linha. O que queremos fazer, portanto, é tirar a poesia do formato chato e previsível que ela assume quando se resume a si mesma.