A obra acima, de minha autoria, produzida em técnica mista e antropofagicamente intitulada "Doutor Floresta", foi, pedantismo à parte, uma das vedetes do saudoso mega-evento Algonauta - Navepoesia Galactocanibal, a maior e mais importante mostra de Poesia Total do século 21, que aconteceu em 2003, no Planetário, aqui mesmo em Porto Alegre. Ao buscar uma releitura do espectro mais radical da poesia experimental do século passado, o grupo Algonauta desenvolveu poemas nas mais diversas estruturas, entre elas, poemas-objeto, vídeos-poesia, poemas-instalação, performances poéticas, poesias sonoras, poemas-enema e poemas-poema.
Flertando principalmente com movimentos como Dadá, Poesia Concreta, Poema-processo, Pop Art e, sobretudo, Poesia Intersignos, do nosso ídolo maior Philadelpho Menezes, a mostra Algonauta produziu uma "poesia de pinceladas pós-contemporâneas, nas quais se buscava reconstruir o conceito aurático em detrimento do axioma estruturalista", como definiu o crítico Michael Korfmann, professor da UFRGS e coordenador do grupo de pesquisa "A Vanguarda na Literatura Moderna". Em outras palavras, tratava-se de uma "tentativa de desmaterialização da arte, de forma que o conteúdo se transformasse na própria estrutura referencial", de acordo com a reflexão do poeta Rodrigo Balão Uriartt, líder do grupo, que era constituído ainda pelos poetas Fabiano Gummo, Joõo Mognon, Marcelo Noah, Artur Costa e, é claro, eu mesmo, Fabio Godoh.
Para o grande homenageado dessa apoteose estética e estática, o poeta César Pereira, histórico representante gaúcho no movimento concretista dos anos 50, "a exposição inseriu novamente o Rio Grande do Sul no cenário mundial da poesia visual". Outro homenageado foi o poeta uruguaio Clemente Padín, vencedor de diversas bienais, e que, mesmo não podendo estar presente, mandou poemas e boas energias para o grupo: "Algonauta é uma das grandes realidades da poesia visual latino-americana", ressaltou em belíssima carta enviada de Montevideo.
Longe do espírito utópico de renovação, outorgado pelas vanguardas do século 20, o grupo porto-alegrense acreditava que a única maneira de agredir os responsáveis pelo caos em que se encontra a arte hoje seria "plagiá-los no estilo e contrapô-los na atitude conceitual", como na época explicava aos repórteres o poeta e estrategista cultural Marcelo Noah, principal destaque midiático do evento. Para ele, era "preciso aproveitar o enorme legado estético das vanguardas e esquecer um pouco o conceito metalingüístico do novo". De acordo com o lendário poeta Augusto de Campos, amigo e entusiasta do grupo, e que gentilmente contribuiu com dois de seus poemas para a mostra, "tudo pode, de fato, já ter sido feito, exceto o plágio e o pastiche, estes sim representam verdadeira novidade dentro da sua própria negação como tal".
Além disso, o local escolhido para essa experiência, o Planetário da UFRGS, notoriamente agregou ao projeto, há de se dizer, toda sua carga de "mirada ao não-definido", como avalia Joõo Mognon, transpondo, assim, de forma niilista e catártica, as fronteiras entre o científico, o poético e o religioso. Segundo Fabiano Gummo, "assim como o próprio espaço foi capaz de agir de forma lunar na significação das obras expostas, visamos também à possibilidade do caminho inverso, atingindo semanticamente a própria estrutura do Planetário, de forma que ele próprio se tornou um grande e admerdável poema cosmicômico".
E o inteligente público, que lotou as dependências do Poema Cosmicômico na abertura e na clausura do evento, saiu entre nervoso e extasiado, principalmente com relação às interferências e projeções intersígnicas na cúpula do Planetário. "Fiquei realmente emocionado", desabafou o professor de literatura da UFRGS, Homero Araújo, em meio a copiosas lágrimas de satisfação intertextual. Outra figura que saiu da mostra transtornado de prazer estético foi o artista plástico e jogo-maker Felipe Jornada: "De manhã, fui a Caxias comprar o presente da minha sobrinha Bruna, e acabei comprando também uma linda sandália e uma charmosa bolsa para mim, para ir a festa de aniversário da Bruna. Cheguei em casa cansadaço. De tarde minha prima Rê veio aqui em casa", afirmou.
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Godoh, Joõo, Balão, Pereira, Gummo, Noah e Costa.

