1. Sob o signo de Maldoror
Em 2001, as previsões astrológicas indicavam uma intensificação dos desafios e das mudanças que a humanidade enfrentaria com a entrada no século 21. Na ocasião, Sol e Mercúrio estavam em Escorpião, o que significava a necessidade de aprofundamento em nossa busca pessoal. Mercúrio, no entanto, apresentava características um tanto quanto retrógradas, atrasando um pouco as condições ideais à introspecção contemplativa. Além disso, Vênus e Marte manifestavam certa ansiedade mística, o que, por certo, dificultaria a fluência tranqüila dos relacionamentos, apesar da evidente necessidade de fortes paixões.
Por essa época, eu ignorava com orgulho tais especulações. Inclinado ao racionalismo histórico das vanguardas paulistas, não apenas desconhecia por completo a amplitude cósmica do inconsciente coletivo, mas fazia questão de ridicularizá-lo sob a luz da semiótica de Pierce. Com a palavra atravessada nos olhos, eu era apenas um estudante de literatura embriagado pelos limites da razão pura. Mas, sem que eu mesmo soubesse, este novo século, que despontava silencioso de tanta utopia, lentamente fecundava, sob o solo assexuado do materialismo, uma tempestade cármica de sincronicidades apaixonadas, acarretando conseqüências definitivas para a minha vida.
Eu conheci Rodrigo Balan Uriartt por intermédio da artista plástica Camila Schenkel, então minha namorada, que recém havia ingressado no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Simpatizei de imediato com Balan. Uma figura macilenta e descabelada, com dedos no lugar dos olhos, e uma pele vazia por trás dos óculos quebrados. No entanto, logo reparei que Balan representava o meu exato negativo intelectual, o que fez com que eu mantivesse, num primeiro momento, um certo distanciamento regulamentar crítico. Sempre encharcado de vinho, Balan costumava impor ao grupo de jovens estudantes, reunidos em torno de Camila Schenkel, com voz forte e profética, toda aquela anarquia místico-surrealista que não me despertava mais que desprezo: Balan era a voz do novo século que martelava em meus olhos atravessados pela palavra “silêncio”.
No entanto, algo me atraía naquele judeu bárbaro de ouvidos tortos e unhas salpicadas de tinta. Inconscientemente, comecei a procurar alguma possibilidade de conexão com aquele verdadeiro “furacão sem olho”, mas minhas tentativas esbarravam na incomunicabilidade e no distanciamento psicossocial. Cheguei a pensar que o dadaísmo – doutrina na qual eu começava a mergulhar – pudesse estabelecer algum vínculo com aquela alma dócil e amaldiçoada. Mas foi em vão. Balan falava de ocultismo, astrologia, I Ching, e, no campo da arte, parecia ainda acorrentado ao romantismo, de modo que o abismo Dadá em que eu enterrava a minha covardia lhe despertava apenas uma seriedade cética.
Nesta época, chegou às minhas mãos, pela primeira vez, os poemas de Rodrigo Balan, escritos em mesas de bar, manchados de vinho e hermetismo. Balan fez circular entre o grupo uma espécie de coletânea de seus escritos, e eu diria que ali já estava pronta a alma de “Digno Ócio”, o livro que o leitor agora tem em mãos. Confesso que, na época, aqueles poemas me despertaram uma sensação angustiante de, por um lado, displicência lingüística, e, por outro, escatologia moral. Parecia interessante, mas não me provocou entusiasmo desproporcional.
Na passagem do ano, acompanhei o grupo de estudantes de artes a uma viagem ao litoral do Uruguai. Durante uma tarde ensolarada em Montevidéu, eu ouvi Balan comentar, subitamente, sobre Isidore Ducasse. Até então, jamais eu tinha ouvido dele alguma referência a esta personalidade literária que tanto me fascinava, e que, de fato, tinha nascido ali, em Montevidéu, de modo que meu coração disparou e meus olhos incendiaram. Estava, enfim, desvelada a cadeia cármica de ódio e amor que prenderia, para sempre, o meu coração ao coração de Rodrigo Balan Uriartt.
Assim, partimos os dois em busca da casa de Isidore Ducasse. Varremos as bibliotecas atrás do endereço, peregrinamos por ruelas da Cidade Velha da capital uruguaia, e, por fim, descobrimos que não só a rua, mas todo o bairro que deu à luz o autor de Cantos de Maldoror havia sido riscado do mapa para a construção de uma grande avenida às margens do Rio da Prata. Sentados em um banco, sob um Sol de Mercúrio, olhando para os barcos que partiam rumo à Escorpião, eu e Balan choramos abraçados a morte da rua do maior poeta que já existiu.
2. A Incerteza Ontológica
O ano de 2002 foi um dos mais importantes do meu mapa astral. A literatura começava a se afirmar com ares de adolescência tardia, mas necessária. Aos poucos fui abandonando o rigor concretista e enveredando pelos caminhos sem volta do irracionalismo de vanguarda. No rádio, eu e Marcelo Noah explorávamos a sonoridade das palavras em vôo, e as artes plásticas avançavam pelos campos do meu instinto, de modo que, juntamente com Fabiano Gummo, Artur Costa, Joõo Mognon e, é claro, Rodrigo Balan, eu e Noah articulamos a primeira exposição de Poesia Total de Porto Alegre: “NavePoesia Galacto-Canibal”, que ocorreu no Planetário.
Ali, Balan apresentou muitos dos poemas de Digno Ócio, adaptados para a proposta verbivocovisual – entre eles, a síntese suprema de sua alma poética, o aclamado vídeo experimental que deu o nome ao presente livro. Foram dias de muito conflito, muita paixão. Nas discussões sobre a concepção da mostra, eu e Balan quase chagamos a trocar sopapos na cara dos fatos. Mas encontramos a paz através da anti-arte: “Na noite de véspera da inauguração, eu e Balan saímos para nos embriagar nos arredores do Planetário, e subitamente encontramos no chão alguns restos de adereços teatrais nas proximidades da Faculdade de Psicologia. Logo percebemos que eram vestígios de alguma performance, muito comum entre jovens aspirantes a terapeuta. Então, decidimos recolher o lixo e levá-lo para o Planetário, a fim de apresentar o material como uma grande obra no dia seguinte”. E foi, de fato, o que aconteceu – nosso primeiro poema feito em parceria, intitulado cinicamente de “Maldoror”.
Outro fato importante dessa época é o vídeo “Abravanel contra o monstro da arte contemporânea”, protagonizado por Balan: um marco no pensamento ocidental. Tudo partiu de um texto que eu escrevi para a mostra do Planetário, chamado “A incerteza ontológica”, no qual eu inventava, por meio de uma linguagem acadêmica, o relato de um artista cuja obra era persuadir os visitantes de uma Bienal a abandonarem o recinto e (sob a evidência de que a arte havia sucumbido à incomunicabilidade) a contemplarem o pôr-do-sol no Guaíba. Devido à polêmica gerada em torno dessa idéia, portanto, resolvemos produzir um pequeno vídeo, no qual Balan interpretava o personagem niilista do texto: “Bobagem”, gritava ele, embriagado, com as mãos em punho em direção ao povo que adentrava o palco da Bienal.
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3. Urina & Arte
Um dia, eu vi Balan beber mijo. E aquilo mexeu comigo.
Profundamente.
Estávamos todos enchendo a cara na casa de alguém,
quando ele se levantou e disse: “Eu sou capaz de beber mijo!”
A música parou. Os olhares se acenderam. Eu senti meu coração latir.
E sob uma névoa de perplexidade,
Balan subitamente arrancou seu pau circuncisado para fora das calças,
e mijou no copo.
Como um brilhoso vasilhame repleto de cerveja cristal,
ele então levou o copo à boca,
e entornou seu próprio mijo,
como quem bebe o santo daime.
(Então, eu entendi tudo. E só naquele momento comecei a compreender o que Rodrigo Balan fez não apenas pela poesia, mas pela linguagem. Então, tudo tornou-se alvo, salvo brilhante, dinâmico e trêmulo para mim.)
Com aquele gesto, enfim, Balan arrancou definitivamente a palavra “silêncio” atravessada nos meus olhos, e a purificou em chamas dentro do coração de Mercúrio.

massa ! adorei as fotos (e o sensível prefácil, é claro...)!
assim que me tornar famoso (e multimilionário) te contrato como ghostwriter !!!
Posted by: rodrigo urinarte | 12/22/2009 at 16:51
foi na casa do dudu q ele bebeu mijo!!
Posted by: gabi | 01/26/2010 at 00:51