A vida intumescia-se ali, inquietante e fantástica, vista
através da fenda da imaginação. Com o corpo inclinado, o sangue bramia
nos ouvidos, e as vozes atrás da porta rolavam como pedras ou deslizavam como
sobre tábuas ensaboadas.
– Coronel, o senhor não é um homem!
– Olha, Hernández, em outro lugar eu lhe mostraria que um brasileiro não vale por um, mas por dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disso.
– Coronel, em outro lugar eu também poderia lhe retorquir, mas não estou agora para bravatas. Digo e repito: não é um homem, senhor Bento Gonçalves!
– Que pretende dizer com isto, Hernández?
– Caramba! Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três bravos gaúchos; bem sei que um deles era eu, Godoh Hernández. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se ficar aqui bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem! Mas decerto que não o é. Minha mulher teria vergonha de praticar semelhante fraqueza... Além disso, não somos governados por um menino de dez anos!
– Quem governa é a lei...
– Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força e a coragem. O mais, são palavras sonoras para os fracos e covardes!

Ser quem somos já é difícil. Ser. Há de ser. Fazer o que. Fomos. E continuamos. Enfim. Foi isso e nada mais. Eternamente.
Posted by: João | 12/04/2008 at 08:03
Emocionante, estarrecedor. Assunto e execução casam-se à perfeição para um efeito avassalador. Parabéns.
Posted by: Thiago | 12/04/2008 at 13:10
grande reinterpenetração histórica. deverias escrever todos os capítulos da guerra e paz del cona sur, sob a ótica castelhana-gaudéria! algo que já está no poente das horas...
à propósito, ando gostando também muito dos teus desenhos e ilustrações... outra fonte inspiracional de godô !!!
Posted by: le balan | 12/18/2008 at 11:40