O Brasil, definitivamente, não nos entende... Um país cujas orquestras não conseguem ensaiar um tango de Lupicínio Rodrigues sem desafiná-lo com pandeiros e atabaques; um país cujos estômagos antropófagos não podem ingerir uma costela crua sem adoecer; um país cuja produção intelectual não vai além de um triste carnaval de indefinição e provisoriedade; um país cuja origem é o cérebro doentio de um caudilho argentino chamado Getúlio Vargas; um país cuja ignorância dos atores não diferencia um uruguaio de um cavalo baio; um país cuja única invenção é o Trio Elétrico da Bahia – ou, pelo menos, em nenhum outro lugar falam tanto dele; um país cujo humorismo está no trocadilho barato e na Poesia Concreta; um país, enfim, "invejável" para se cuspir; como é, portanto, que vai nos entender? Como é que pode saber da terrível lobotomia cultural em que nós gaúchos vivemos e da qual tanto nos orgulhamos?
Mesmo quando o mundo desmorona, existe um artista que permanece no centro, que se torna mais solidamente fixado e ancorado, mais centrífugo, à medida que se acelera o processo de dissolução geral da realidade. (Esse artista, caros humanos, chama-se Fabiano Gummo.)
Pois bem, estou agora numa galeria de arte em São Leopoldo... (Cercado pelos coelhos radioativos de Gummo, lembro-me de uma frase que costumava ouvir de seus olhos enquanto caminhávamos sem rumo pelas alamedas obscuras do Fracasso: "Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há de cor no coração".)
No limiar deste grande salão, cujas paredes agora estão em chamas, paro por um momento na tentativa de me recuperar do choque que experimentamos quando o habitual cinzento do mundo é rasgado pela cor lúcida da Revelação: em pé, na fronteira do mundo, volto então a experimentar a mesma força que permitiu a Basquiat deformar tanto o quadro da vida, que o próprio nexo dos sonhos acabou rompido, espirrando suas tripas num grande jorro esquizofrênico em face do Absoluto.
(Com a coragem de sacrificar a linha harmoniosa a fim de captar o ritmo e o murmúrio do sangue, Fabiano Gummo foi capaz de perceber a estabilidade física do invisível, para então anunciar suas descobertas com o pigmento metafísico do espaço.)
Ainda estou em São Leopoldo, embora meus pés estejam no Absoluto. Saio para fumar um cigarro, e penso que Fabiano Gummo é música saindo como fogo da cromosfera oculta da dor... (Enquanto isso, lá dentro, no salão lotado, Gummo navega entre tomos e mais tomos de átomos adulterados, aplicando, sem piedade, sob a luz adúltera das estrelas estranguladas, sua radioterapia cega de criança no coração doente de um Deus corrupto e covarde.)
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Bento, filho de JOÃO MANUEL BANDEIRA GONÇALVES e
VENÂNCIA SHINYASHIKI FERREIRA
ROBERTO GONÇALVES BOLAÑOS DA SILVA
GOMÉS GONÇALVES DA SILVA
GONÇALVES DUTRA
GONÇALVES DANTAS
GONÇALVES DIAS
GONÇALVES GONÇALVES GONÇALVES GONÇALVES
BENTO BENTO BENTO BENTO BENTO
BENTO DA SILVA
SILVA, GONÇALVES & CIA.
Dr. BENTO DA SILVA
Prof. SILVA GONÇALVES
EMERENCIANO GONÇALVES DA SILVA
JUREMIR GONSALVES DA SILVA
Ilmo. e Exmo. Sr. BENTO DA SILVA GONÇALVES
GONÇALVES BENTO
SILVA BENTO DIAS
BENTO GONÇALVES DA SILVA
Ah, como seria agradável se a arte
Fosse uma mulher...
Uma mulher inculta, relaxada e bondosa
Completamente desprovida de idéias especiais.
No entanto, basta voltarmos
De um desses passeios
Por nossas fantasias,
Que vemos à nossa frente
Um espírito burguês e aplicado,
Sempre à procura de pensamentos
Cada vez mais nobres e elevados.
(Embora seja muito bonito saber que as mulheres
Têm cérebro,
A arte vinda do cadáver frio de uma puta
É a última coisa que pode servir na cama.)
nada poderá vencer
este vírus
que está envenenando
o mundo inteiro
(a arte
é a própria encarnação
da ruína
ela arrastará a todos
para um espaço
sem fundo)
não é difícil
estar sozinho
quando se é pobre
e fracassado
um artista
está sempre
sozinho
(se é artista)
se
eu
me
retirar
não
haverá
vazio
onde
vocês
possam
nadar
não temos necessidade do gênio
(o gênio está morto)
temos necessidade de
mãos fortes
e de espíritos que estejam dispostos
a abandonar o fantasma
e criar a carne
mudei a máquina de escrever
para o banheiro
agora
posso
ver-me no espelho
enquanto escrevo
RRrrrrRRRr
rrrrRrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrRrrrrrrrrrr
rrRRRRRRRR
rrrrrrrrrrrrrrrRRRRrrrrRrrrrrrrrrrrrrrrrrRr
rrrrrrrrrrrrrrRrrRrrrrrrrrrrrrrrrrRRRRrrrrrrrrrrrRRrrrrrrrrrrrrRRrrrrRRRr
rrrrRrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrRrrrrrrrrrrrrRRRRRRRRRRRrRRRRRRRRRRRrrr
rrrrrrrrrrRRRRRRrRrrrrrrrrrrrrrrrrrRr
rrrrrrrrrrrrrrRrrRrrrrrrrrrrrrrrrrRRRRrrrrrrrrrrrR
RrrrrrrrrrrrrRRrrrrRRRr
rrrrRrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrRrrrrrrr
rrrrrRRRRRRRR
RRRrRRRRR
RRRR
RRrrr
rrr
rrr
rr
rrrRrrrrrrrrrrrrRRRRRRRRRRRrRRRRRRR
A vida intumescia-se ali, inquietante e fantástica, vista
através da fenda da imaginação. Com o corpo inclinado, o sangue bramia
nos ouvidos, e as vozes atrás da porta rolavam como pedras ou deslizavam como
sobre tábuas ensaboadas.
– Coronel, o senhor não é um homem!
– Olha, Hernández, em outro lugar eu lhe mostraria que um brasileiro não vale por um, mas por dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disso.
– Coronel, em outro lugar eu também poderia lhe retorquir, mas não estou agora para bravatas. Digo e repito: não é um homem, senhor Bento Gonçalves!
– Que pretende dizer com isto, Hernández?
– Caramba! Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três bravos gaúchos; bem sei que um deles era eu, Godoh Hernández. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se ficar aqui bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem! Mas decerto que não o é. Minha mulher teria vergonha de praticar semelhante fraqueza... Além disso, não somos governados por um menino de dez anos!
– Quem governa é a lei...
– Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força e a coragem. O mais, são palavras sonoras para os fracos e covardes!
Si hay una cosa que me deja aburrido
Es pelear conmigo
Aunque no pasa nada
Si hay una cosa que me deja muy triste
Es eso, nena...
Yo no quiero jugar
Solo quiero cantar
A mi me gusta perder
Y a ti ganar...
Tampoco quiero llorar
Entonces voy a fumar
Que el humo deste porrito
Te traiga una vez más...
Viene acá!
Que ahora estoy fumando
Viene mi perrita
Que el porrito está llamando
Joga a toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu fogo de palha apagou no coração
Joga... ah! toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu conto de fada acabou em pastelão
Acorda, amigão, vai no banheiro e afunda na privada
Teu olho vermelho, tua pupila dilatada
Foge, amigão, te joga no fogo, desiste da jogada
Entrega o jogo e resolve a parada
A tua barra tá pesada, parceiro...
Levanta, amigão, sai do banheiro e te liga na tomada
Um choque certeiro, uma luz apagada
Não pede socorro, não pede um cigarro
Não passa pomada
Escuta lá fora, tão dando risada
A tua dor é engraçada, parceiro...
Foge pra cama, dorme na lama, agüenta a porrada
Ou engana essa fome, comendo salada
Foge, amigão, mata no peito e ri dessa piada
Ou te dá o respeito...
E te joga da escada
Joga a toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu fogo de palha apagou no coração
Joga... ah! toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu conto de fada acabou em pastelão
Tua vitória é tão curta, tua vaia é eterna
O teu papo é tão puto, tua merda é moderna
Escuta, amigão, surta de vez e vê se te interna
Ou sai dessa vida...
Com o rabo entre as pernas
Que amor vagabundo, que corte profundo
Pára um segundo
Escuta a canção, e te larga no mundo
Lava essa cara, lava essa alma, que medo imundo
E sai desse bar...
Pela porta dos fundos
Joga a toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu fogo de palha apagou no coração
Joga... ah! toalha, amigão
Tu perdeu a batalha
O teu conto de fada acabou em pastelão
Foge da luta, foge da raia, foge da rinha
O teu galo, amigão, tem coração de galinha
Ou volta pra mesa, fica na mesma, a mesma vidinha
Por mim tá beleza...
Tua dor não é minha
Antes de mais nada, é bom lembrar que na doutrina Zen, quando o discípulo começa a sofismar com demasiada sutileza, os mestres o presenteiam com um belo soco nos cornos. Não para puni-lo, mas porque o bofetão significa "a tomada de contato com a vida, sobre a qual não se deve raciocinar". Ou seja, como diz o retro-marqueteiro Joõo Mognon, "existe verdadeiramente o inexprimível, e ele se mostra; é a mandala". Portanto, tomemos a bofetada na cara do mestre Zen, e fixemos a atenção no olhar do sofista sutil: "Eu vejo uma mandala". (Enfim, mandalas e sofistas: divindades que aceitam com alegria o "mutável", mas ao mesmo tempo recusam as leis que o imobilizam, redefinindo-o sempre através de uma triste festa de marketing e provisoriedade.)
Há um provérbio oriental que diz que o dedo mostra a lua, e que o idiota olha o dedo. Mas, afinal, qual é o medo de olhar o dedo? O dedo passeia no céu, e transmuta-se em si mesmo o tempo todo; e assim, os orientais convidam os homens a gozar o mundo em toda a sua mutabilidade vital. Em outras palavras, para o oriental, as substâncias e os acontecimentos encontram-se numa perpétua transformação, cada um deles exprimindo uma face não-eliminável e complementar dos fenômenos. Mas o curioso é que a única coisa no mundo que foge a esta regra é a própria cabeça dos orientais, ou melhor, o dedo. Por isso, as mandalas ocidentais vêm sempre acompanhadas de uma estranha tensão mental, desconhecida entre os orientais. Uma espécie de vácuo ativo, vazio seminal, que é a essência mesma do humano, negligenciada aos animais.

Pierre Bayard é o orgulho dos nossos tempos. Verdadeira figura superior de "homem pensante", um dos últimos, talvez, que terão pensado profundamente sobre a complexidade das coisas, numa época em que o mundo lê cada vez menos, e a civilização, dia após dia, parece reduzir-se à simples lembrança de sua riqueza multiforme e de sua produção intelectual livre e superabundante.
Assim, para a salvação geral da turba ignorante e coisificada, Bayard acaba de lançar, pela editora Objetiva, seu último monumento ao conhecimento humano: Como falar dos livros que não lemos?, síntese de sua espantosa evolução criadora, sobre a qual, diga-se de passagem, atua o movimento inquieto e incessante de um pensamento sempre mais ousado e livre.
Não entrarei aqui nos meandros de sua extravagante tessitura filosófica, tampouco em suas notáveis e indefectíveis "dicas de não-leitura". Não, não é o momento de procedermos a um exame que necessitaria de uma cuidadosa e responsável esquadrinhadura, a qual, com efeito, só poderia ser executada à luz dos dias de primavera e na plenitude túmida de uma concentração de espírito solitária.
Afinal, quer ou não sigamos as pegadas de Pierre Bayard pelos caminhos densos desta linda reflexão acerca das "diferentes maneiras de não lermos os livros", às quais, aliás, ele dedicou toda a sua vida, é preciso que tenhamos em mente, acima de tudo, que este homem – para nós, poetas e críticos literários – foi, é, e sempre será um autêntico exemplar das virtudes epistemológicas mais estratosféricas do pensamento pós-contemporâneo.
Dessa forma, caro leitor, não sinta-se abandonado. Outros falarão, com exatidão e profundidade, de uma obra tão poderosa e tão esmerada quanto "Como falar dos livros que não lemos?" Outros, seguramente, ainda exporão quem foi o homem que a concebeu e a carregou até a Glória. Quanto a mim, não posso oferecer aqui senão uma simples homenagem a Pierre Bayard e a sua última obra-prima da sapiência civilizatória: algo como uma "flor perecível sobre uma tumba que permanecerá", como diria Paul Valéry.
Depois que lancei a âncora do Marketing Poético
Nesta província gordurosa e lobotomizada,
Muitos equívocos foram engendrados
Em nome de Nenhuma Poesia.
Dessa forma, cabe aqui algum esclarecimento.
Observe,
Em primeiro lugar,
A seguinte vaginação longitudinal:
A moda, assim como a arte de ultravanguarda,
É a alegria da ilusão do câmbio.
Portanto, creio que
Ao poeta
Não resta outra alternativa,
Em ambas as atividades,
Senão forjar suas simbologias exaustas
A partir do conceito de
Publicidada.
Eu encontrei o conceito de Publicidada
Pela primeira vez
Em Osvaldo de Andrade,
E também no livro
Introdução ao Entorpecimento Intersubjetivo,
De Xavier Solomon.
Naquele tempo,
Eu já havia me dado conta
De que procurar o conceito de Publicidada
Era a minha sina;
Emblema de todos aqueles que saem à noite
Sem qualquer finalidade exata;
Razão de todos os incineradores de livros.
No entanto, o que me exasperava
Era saber que nunca mais voltaria a estar
Tão perto de minha liberdade
Quanto estive na época em que me sentia
Encurralado pela Literatura,
Quando a ansiedade de libertar-me
Não passava de mera confissão de derrota.
Em segundo lugar,
Com relação à Literatura
Propriamente
Dita,
Devo informar que o Marketing Poético
Antecipa, com efeito,
As três
Tendências
Fundamentais
Da Pós-Contemporaneidade:
A poesia inexistente (também
Chamada
Totalitária);
O Consumo
Do Vazio (a tarefa mais
Difícil que nos foi
Imposta,
A maior e última
Prova, para a
Qual
Todas as outras
São apenas
Uma preparação);
E,
Por fim,
O amor
Das criaturas humanas (Estrategismo Sexual),
Pois sexo bom
É sexo pago.
Entretanto, o que denomino Marketing Poético,
Em última análise,
Só pode ser compreendido (em toda a
Sua magnitude)
À luz do que o estilista Joõo Mognon
Definiu como a
Lógica da Pornografia Sociologizada:
"Primeiridada" – Visualidade menos o Emotion Design;
"Secundidada" – Tatilidade mais uma Flanela
Xadrez de Referências;
"Pamplicidada" – Vibração entre a
Chimia da Primeiridada e o Charque da Secundidada:
Ou seja, uma espécie de terceira superfície lingüística,
Tão atraente
Quanto a primeira pele
Da vida.
Assim, fica claro,
Pois, que Nenhuma Poesia
Não apenas representa um código vitorioso
De sobrevivência no mercado
(Como alguns souberam argumentar),
Mas, sobretudo, a própria essência de Deus,
Isto é, o Processo
Interminável por meio do qual
O corpo
É decodificado
E recodificado,
Definindo e habitando
Os mais novos espaços territorializados
Da alma do capital.
("Nosso ócio é traduzir letras por cifras",
Disse Monsieur Matzenbacher.)
Pois bem, caro
Leitor,
Decorreu muito tempo desde que articulei,
Com tanto ímpeto,
Toda essa gama de descobertas maravilhosas.
Mas não me guarde rancor
Por isso;
Trabalho, incômodos e indisposições
Impediram-me de
Enrijecer
A envergadura cósmica
De Nenhuma Poesia.
Agora,
Todavia,
Sinto-me outra vez
Um pouco
Melhor,
E venho
Cumprimentá-lo
(O que faço com tanto gosto)
E dizer-lhe,
O melhor
Que posso,
Dez sentenças
Definitivas
A respeito de todo este
Blá-blá-blá
Que é
A Literatura.
1. Devo esclarecer que a Literatura não me interessa; afinal, os grandes escritores não escrevem livros.
2. A sabedoria é silenciosa, e a propaganda mais efetiva para a Verdade é a força do exemplo pessoal: "Na ossada geral brasileira, alguém tem de exercer as funções de chimia e ovo".
3. O Silêncio Literário, objetivamente, não é uma revelação externa: a Literatura é aprendida, ao passo que o Silêncio é Abscôndito, e está profundamente enraizado em nossa Anatomia Atonal da Anotabilidade Social – onde, segundo os Cadernos de Noah, "anotar é não notar".
4. De Prof. Homero a Paulo Coelho, nós vivemos um estrondoso Silêncio Interno.
5. Portanto, amigo leitor, quando digo que não tenho o que escrever, quero dizer, literalmente, que não tenho o que escrever; se dissesse que tenho Algo a dizer como escritor, seria um péssimo escritor – melhor que eu fosse um jornalista, apesar de saber que estou exatamente entre essas duas possibilidades.
6. O bom escritor, ao contrário do jornalista, prefere dar a seus aleijados psíquicos pernas em vez de muletas – e é nisso que a coisa se resume: a obra é um roubo e o leitor é um bobo. Aliás, como explicou Dieguinho Petrarca, "poeta que é poeta vinte e quatro horas por dia faz na cama o mesmo que faz no papel".
7. Por isso, quando escrevo Algo Literário, não se trata, evidentemente, de Literatura em relação a Algo: trata-se apenas de literatura, do mesmo modo que ao entrar numa greta molhada, o pau também fica molhado.
8. A moda é muda, a saga é cega, a porra – espirra.
9. Os dadaístas, com o gesto de fornicação, desejam renunciar ao estético presente no Social, ocultando o caráter mercadológico da Poesia Politizada. Já o artista pop, ao copiá-lo, aceita-o como objeto de trabalho, como tema, e assim a Obra de Arte assume a imagem da misericórdia, sem disfarces.
10. Observe, estimado leitor, que estou me referindo a uma Poética, estou falando sobre o conteúdo do meu conteúdo; por isso, quando digo que só-é-livre-quem-se-livra-dos-livros, quero dizer, literalmente, que o-Maradona-é-melhor-que-o-Pelé. (E tenho dito.)
Fabio Godoh, inverno de 2008.
Disse Marcel Duchamp: "O poeta contemporâneo nasce e morre num hospital – portanto, também deve morar num hospital". Ou seja, em toda a atividade que não é exercida por dinheiro, mas por amor, chega um momento em que o acúmulo de décadas parece levar a nada. É como se a velha Arte ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; e quando Duchamp a despertou, as formigas tinham entrado em seu sangue, e desde então a nova poesia precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo fanatismo pela auto-aniquilação. Em outras palavras, eu diria que a poesia pós-contemporânea é como um ovo que pressente na gema seu magnífico futuro de pássaro, mas mostra ao mundo apenas aquele design de ovo, inexpressivo, que não se distingue de nenhum outro.
.
Fugindo em branco pelo campo do alfabeto
Aviso às letras que um soneto me persegue;
Invento um verso que desvie o seu trajeto
Ou corto a língua da palavra que me segue?
Voando baixo, e muito além do dialeto...
As letras mudas me sugerem que eu entregue
Todo meu peito ao coração de um arquiteto
Que do soneto imploda o prédio que se ergue:
mato no peito dos lábios
a palavra que mordo
pelas costas da língua
morre nos braços dos lábios
a palavra que mato
no peito da língua
.