Pierre Bayard é o orgulho dos nossos tempos. Verdadeira figura superior de "homem pensante", um dos últimos, talvez, que terão pensado profundamente sobre a complexidade das coisas, numa época em que o mundo lê cada vez menos, e a civilização, dia após dia, parece reduzir-se à simples lembrança de sua riqueza multiforme e de sua produção intelectual livre e superabundante.
Assim, para a salvação geral da turba ignorante e coisificada, Bayard acaba de lançar, pela editora Objetiva, seu último monumento ao conhecimento humano: Como falar dos livros que não lemos?, síntese de sua espantosa evolução criadora, sobre a qual, diga-se de passagem, atua o movimento inquieto e incessante de um pensamento sempre mais ousado e livre.
Não entrarei aqui nos meandros de sua extravagante tessitura filosófica, tampouco em suas notáveis e indefectíveis "dicas de não-leitura". Não, não é o momento de procedermos a um exame que necessitaria de uma cuidadosa e responsável esquadrinhadura, a qual, com efeito, só poderia ser executada à luz dos dias de primavera e na plenitude túmida de uma concentração de espírito solitária.
Afinal, quer ou não sigamos as pegadas de Pierre Bayard pelos caminhos densos desta linda reflexão acerca das "diferentes maneiras de não lermos os livros", às quais, aliás, ele dedicou toda a sua vida, é preciso que tenhamos em mente, acima de tudo, que este homem – para nós, poetas e críticos literários – foi, é, e sempre será um autêntico exemplar das virtudes epistemológicas mais estratosféricas do pensamento pós-contemporâneo.
Dessa forma, caro leitor, não sinta-se abandonado. Outros falarão, com exatidão e profundidade, de uma obra tão poderosa e tão esmerada quanto "Como falar dos livros que não lemos?" Outros, seguramente, ainda exporão quem foi o homem que a concebeu e a carregou até a Glória. Quanto a mim, não posso oferecer aqui senão uma simples homenagem a Pierre Bayard e a sua última obra-prima da sapiência civilizatória: algo como uma "flor perecível sobre uma tumba que permanecerá", como diria Paul Valéry.
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