Desde que Juremir Machado da Silva morreu, eu não lia nada dele. Talvez o choque com a perda do mestre tenha criado em mim um tal bloqueio, que jamais consegui novamente folhear algum dos seus livros.
(Não seria um certo medo de que meu ídolo tivesse sido superado pelo tempo? "Quizás, quizás, quizás...")
Pois bem, todo mundo sabe que não é nada fácil conceder uma entrevista ao Chimia Geral. (Se alguém acha que eu publico a verdade, nada mais que a verdade, se machucou, bicho!) Por isso, para esta conversa – que durou doze horas e catorze garrafas de vinho francês – eu e o meu amigo Cardoso decidimos reler todos os escritos de Juremir Machado da Silva.
(E chegamos à seguinte conclusão: Juremir não é um jornalista apenas atual – ele historicamente superou o tempo.)
Godoh: O senhor pretende nos mentir muito nesta entrevista?
Juremir: Ah, isso é inevitável... Todas as entrevistas são falsas! Afinal, o sujeito não vai ficar dando de si uma representação com a qual ele não concorde, que seja desabonadora... Eu vou tentar é ficar bem na fita!
Godoh: A mentira é um recurso obrigatório para os jornalistas verdadeiramente comprometidos com a verdade?
Juremir: Olha, sempre escolhemos ângulos que são determinados pelo nosso imaginário, que é uma espécie de reservatório de imagens, de emoções, enfim, um recorte cultural que vamos construindo ao longo da vida sem perceber. Claro que não é possível sermos imparciais! Agora, o que devemos fazer é procurar uma diferença entre essa impossibilidade e a tendenciosidade.
Godoh: Para que serve um blog hoje em dia?
Juremir: Para muitas coisas, principalmente as publicações independentes, marginais. No entanto, acredito que elas não sirvam para passar informação. Na verdade, os blogs são veículos de agregação, são espaços de convivência. É algo tribal, entende? Estamos aqui, nos reconhecemos aqui, e nos retro-alimentamos aqui... Em resumo, eles possibilitam que o sujeito construa uma visão de mundo e consolide o seu estilo.
Cardoso: Qual a importância da polêmica para o jornalismo?
Juremir: É fundamental, mas há uma armadilha, na qual eu já caí muitas vezes. O pessoal diz assim: "Está faltando polêmica, vamos fazer polêmica!" Aí um trouxa vai lá e faz! E o que acontece? O cara imediatamente é tachado de polêmico, e não de polemista! Ou seja, passa a ser visto como um sujeito problemático, um criador de caso... Então ele dança! Quer dizer, não podemos ficar o tempo inteiro jogando para a torcida, entende? Por isso as pessoas têm medo da polêmica... Afinal, se não houver uma sustentação por parte dos veículos, a polêmica sempre será um caminho aberto para se perder o emprego. Embora, em alguns momentos da vida, seja até bom perder o emprego!
A polêmica
é um caminho aberto
para se perder o emprego.
Embora, em alguns momentos da vida, seja até bom perder o emprego!
Godoh: Quem debochou do senhor com mais classe até hoje? O Paulo Francis?
Juremir: Olha, o Paulo Francis debochou do meu nome. Disse que era ridículo, que eu deveria trocar... Mas aí não conta, porque ele estava falando a verdade! Mas não sei... Acho que o próprio Luis Fernando Veríssimo... Talvez... É que muita gente costuma debochar de mim. Mas deboche sempre é bom!
Godoh: O senhor ficou conhecido pelo seu instinto revolucionário, pelas suas idéias provocativas, enfim... A pergunta é a seguinte: por que o senhor escolheu o clã dos Veríssimo para exercitar toda essa iconoclastia?
Juremir: Bem, quando eu era estudante de história, na PUC, eu pertencia a um grupo anarquista. Inclusive, chegamos a concorrer ao DCE com uma chapa intitulada "Céus vermelhos e um pacote de cães"! A idéia era nos consolidarmos como uma vertente libertária da política, para então combater o Estado. Até que um dia apareceu um amigo meu, trotskista, que disse: "Vocês são uns inúteis, desorganizados e contraditórios!" E com os Veríssimo foi a mesma coisa... Ou seja, quando eu enxergo algo que parece ser hiperdimensionado, envolto em muita bajulação, eu sempre penso: "Será que isso não tem um furo?" Ora, vamos procurar esse furo! Vamos implicar um pouco! Nem que seja só pela implicância!
Cardoso: E hoje em dia o senhor passou a auto-ironizar esse conflito...
Juremir: Claro, não tem outro jeito. Aplicaram em mim o rótulo de "inimigo do Luis Fernando Veríssimo". O que eu posso fazer? Agora tenho que cumprir esse papel!
Godoh: Mas o senhor é acusado de oportunismo nessa história...
Juremir: Olha, como oportunismo não era uma boa jogada. Eu só sairia perdendo... Mas a verdade é que eu não tinha nenhum interesse em subir na RBS, em ganhar muito dinheiro, essas coisas. De resto, se não houvesse a briga, seguramente eu teria seguido esse caminho... O que eu fiz, na verdade, foi ser coerente com a minha própria incoerência!
Cardoso: Um impulso auto-destrutivo?
Juremir: Sim, um pouco... Aliás, volta e meia eu brinco que sou um maldito. Quando todos imaginam que estou indo numa direção, dou uma guinada e saio pelo outro lado! As pessoas costumam se decepcionar comigo...
Godoh: E isso acontece porque a personalidade do escritor se sobrepõe a do jornalista?
Juremir: Olha, jornalista com certeza eu não sou. Tenho o diploma, escrevo em jornal, falo na TV, mas não me sinto jornalista... A verdade é que acabei encontrando uma situação intermediária, na qual me sinto mais livre: não tenho que viver o cotidiano de uma redação, não tenho as obrigações de um jornalista e, ao mesmo tempo, sou um professor com uma certa liberdade, pois ocupo um espaço na mídia... Ou seja, costumo dizer que sou um opiniático! Dou palpite sobre tudo, até sobre mandinga de cachorro!
Cardoso: O senhor acha que o interesse pelos opiniáticos é algo novo? Eu tenho a impressão de que eles estão ganhando espaço nos veículos...
Godoh: Eis a derrocada final da mentira da imparcialidade!
Cardoso: Exato, é aí que eu queria chegar...
Juremir: Olha, acho que sim. Porque antigamente havia aquela coisa de coletar a informação, resguardá-la, para então publicar no dia seguinte. Mas hoje as informações são consumidas muito rapidamente. Por exemplo: houve um acidente ali na esquina, e em alguns instantes a notícia já está publicada. E o que sobra para escrever amanhã? Além disso, acredito que as pessoas gostem mesmo é de criatividade...
Godoh: Mas as massas não preferem a redundância?
Juremir: Bem, eu não trabalho para as massas... Mas acho que as pessoas apreciam sim a criatividade... Mas, é claro, em níveis diferentes. Elas gostam de uma coisa que eu chamo de "efeitos de inteligência". Vou dar um exemplo simplório, que talvez nem seja muito inteligente... Chega um sujeito e diz: "Qual é a definição de corno?" E o outro responde: Ah, corno é o último a saber." Então o sujeito fala: "Estás enganado, corno é o penúltimo a saber, o último é o Lula!" Entende? É uma brincadeira boba, mas produz um certo deslocamento semântico...
Cardoso: Um salto que vai além do senso comum...
Godoh: Um saltinho!
Cardoso: Sim, um saltinho... No limite do aceitável!
Juremir: Claro! Aí tu podes ir muito ou muito pouco, mas cada vez que um deslocamento desses é promovido, há um efeito de criatividade. E quando as pessoas entendem isso, elas também se sentem inteligentes, e gostam! Portanto, eu acho que o grande desafio do jornalismo contemporâneo é inovar formalmente, mas ainda assim oferecer a chave do entendimento.
Cardoso: Na sua opinião, o que seria dos jornais se eles fossem dominados pelos poetas e todas as notícias se transformassem em crônicas?
Juremir: Olha, eu acho que a poesia é a coisa mais interessante que existe, mas nem tudo pode ser poesia... A verdade é a seguinte: todas as formas de expressão são interessantes. Algumas pessoas costumam dizer "não gosto disso", "não gosto daquilo", mas, no fundo, se olharmos as coisas com uma certa distância zombeteira, vamos perceber que tudo é maravilhoso. Vamos perceber, por exemplo, que a música eletrônica tem algo de fascinante, e que o pagode também possui algo de muito criativo. Ou seja, tudo é igualmente bom!
Se olharmos as coisas
com uma certa distância zombeteira,
vamos perceber que tudo é interessante.
Godoh: Pois bem, em meio a tanto relativismo, como é que o senhor ainda não desistiu da busca pela verdade? Afinal, o filósofo Jean Baudrillard, por exemplo, um dos principais pensadores da pós-modernidade, e uma de suas maiores influências, era um sujeito que, em última análise, defendia o silêncio e a inatividade... Enfim, por que o senhor nunca jogou tudo para o ar?
Juremir: Olha, há um paradoxo aí, porque jogar tudo para o ar ainda é uma forma de acreditar em alguma coisa. A verdade é que tenho muita admiração pela inteligência das pessoas, seja na música, no jornalismo ou na literatura, que são as coisas que mais me interessam. E por que eu não jogo tudo para o ar? Ora, porque me dá prazer! É epidérmico! Eu não fico pensando assim: "Como isso ainda pode me dar prazer se eu não acredito em determinadas coisas..." Dá prazer e pronto! E quando sentimos prazer, é porque a coisa vale a pena! Aliás, eu estive com o Baudrillard uma semana antes de sua morte, e disse a ele: "Jean, eu continuo perseguindo o desejo de escrever como tu, ou melhor que tu..." E ele respondeu: "Ah, então eu te deixo essa missão!" Sabe, eu admiro muito o Baudrillard, pois ele possui duas coisas que considero fundamentais em um escritor: o paradoxo e ironia. Ou seja, pegar um tema e virá-lo do avesso, para então chegar à contradição... Enfim, eu aprecio bastante o mundo das idéias, mas não sou um aventureiro intelectual, como o Rimbaud, por exemplo, que abandonou a literatura e foi viver a vida. Eu não conseguiria... É que de vez em quando sou muito convencional! Gosto muito de ser um escritor maldito, mas com salário no fim do mês!
Godoh: Então a pós-modernidade ainda não pagou sua dívida com Dionísio?
Juremir: Acho que o aspecto dionisíaco continua forte... Muito mais do que no tempo em que eu me dedicava a isso! Quer dizer, estamos numa época cada vez mais hedonista, presenteísta, uma época em que as pessoas querem viver intensamente, aqui e agora, e isso é ótimo! Ou seja, o dionisíaco não se esgota... Em Porto Alegre, por exemplo, ele mudou de lugar: saiu do Bom Fim e foi para a Cidade Baixa, para lugares mais chiques!
Godoh: É verdade que o senhor já proferiu uma palestra pelado?
Juremir: Sim... Eu me divertia muito na época da faculdade! Nós realmente estávamos empenhados com essa idéia de ruptura. Fizemos uma série de coisas... Mas, veja bem, hoje eu sou um professor, e algumas histórias eu prefiro não contar, em nome da minha boa reputação, que foi difícil de reconstruir! Então eu deixo para a lenda!
Cardoso: Bem, em relação à literatura, como o senhor analisa o silêncio retumbante da crítica em relação aos seus livros?
Juremir: Olha, eu acho normal... Principalmente porque não tenho uma militância de escritor, ou seja, eu escrevo, mas não me comporto como um escritor. Acho que para o sujeito ser um bom escritor, ele não pode vivenciar a literatura o tempo inteiro. Às vezes, é preciso olhar o mundo de um outro viés, entende? Enfim, escritor mesmo é o Fabrício Carpinejar!
Godoh: O escritor é sempre o idiota da família?
Juremir: Sem dúvida! Tu podes imaginar a cara do meu pai, lá em Santana do Livramento, quando eu contei a ele que tinha optado pelo jornalismo! Ele disse assim: "Meu filho, senta aí e me explica o que faz um jornalista..." E o pior é que eu não sabia responder!
Godoh: E o que faz um jornalista?
Juremir: A maioria procura emprego! E o resto cumpre esse delicioso e doloroso trabalho de misturar vida intelectual à coleta de informações...
Cardoso: Mas o senhor acredita que ainda seja assim? Porque em qualquer jornal do país, por exemplo, a gente encontra sempre as mesmas notícias...
Juremir: Verdade. Isso é um dos efeitos perversos do atual estágio do capitalismo, a chamada "sociedade do espetáculo". Todos correm atrás da audiência, mas em vez de produzir algo diferente, acabam sempre fazendo as mesmas coisas. É a lei do mercado, mas acredito que não vá durar muito tempo, porque antes não era assim...
Em Porto Alegre, o dionisíaco
saiu do Bom Fim
e foi para a Cidade Baixa,
para lugares
mais chiques!
Godoh: Bem, uma última questão: como professor de jornalismo, o que faltou a gente lhe perguntar?
Juremir: Olha, talvez o seguinte... Eu admiro muito as pessoas que andam à margem, pois essas é que são interessantes! Sabe, eu acho que um sujeito com vinte anos deve ser um franco-atirador! Ou seja, deve provocar choques na percepção das pessoas, deve buscar a criatividade total. Ele não pode amaciar! É preciso criar um outro discurso, uma outra perspectiva, enfim... É claro, não sabemos exatamente qual perspectiva é essa... Mas só vamos descobrir experimentando.
Cardoso: E há limites para esse experimentalismo?
Juremir: Há limites existenciais, porque uma coisa é o cara ter vinte anos e estar no auge da juventude, e outra é ter cinqüenta com meia dúzia de filhos para sustentar! Mas há também um limite estético, que é cada um encontrar o seu estilo. É quando o sujeito diz: "Este é o meu estilo, e agora vou levá-lo às últimas conseqüências." No meu caso, por exemplo, confesso que oscilei muito até encontrar a minha maneira de escrever, essa coisa que mescla ironia com provocação, que pega os assuntos a contrapelo...
Godoh: Mas a pós-modernidade não significa a dissolução dos estilos?
Juremir: Sim... Ou melhor, significa a liberdade de variar os estilos... Aliás, muitas vezes eu pensei em escrever de outra forma, pois a maneira como escrevo acaba sempre me trazendo problemas... Eu me incomodo com muita gente! O ideal seria eu escrever como o Veríssimo! Afinal, ele escreve de um jeito que não incomoda ninguém!
Godoh: Mas com o senhor ele se incomoda!
Juremir: Sim! Mas é que eu sou um idiota! Só comigo que ele se incomodou!
Maaaaaaaas há... " Mas é que eu sou um idiota! Só comigo que ele se incomodou!"
Posted by: KFanfa | 09/07/2011 at 01:56 PM
Excelente entrevista. Destaco a resposta sobre os blogs.
Posted by: Eduardo | 09/07/2011 at 06:58 PM
Ainda ontem vi girafas passeando na Redenção. Ou seriam camelos...
Posted by: Omar | 09/10/2011 at 05:51 PM
O Juremir é o maior chato da Terra! Deus me livre!
Posted by: Carlos Camargo Lopes | 09/22/2011 at 12:01 PM
Depois da vitf3ria final no campeonato, que ocroeru ontem, complemento ainda:1- ne3o existe grupo humano melhor, mais um grupo humano com mais potencial;2- o que impede um grupo humano de exercer sua plenitude e9 a falta de auto-conhecimento, que o leva a ne3o se relacionar bem com seu prf3prio ego, que toma conta do processo; 3- Assim, para que um grupo exere7a o seu potencial e9 preciso sempre saber quem e9 e ate9 onde ele poder ir, para tentar superar os limites.O Botafogo conseguiu se conhecer e ir ate9 a ponta do seu potencial.Talvez, com certeza, o Flamengo tem um limite de potencial maior que o Botafogo, mas este1 exercendo-o?Por que ne3o?Volto a dizer um case interessante para as empresas.Sai das palestras motivacionais corporativas o Bernardinho e entra Joel Santana!(Vejam o post sobre o mais acima).
Posted by: Tessa | 05/13/2012 at 06:31 AM