Tenho certeza de que você nunca ouviu falar em Poesia Totalitária. De onde vem minha convicção? Simples, antes de escrever este artigo, liguei para sete dos artistas pós-contemporâneos mais antenados do país, e perguntei se tinham idéia do que significava a expressão. Apenas um disse ter uma vaga idéia, e estava mentindo. Mas fique calmo, vou explicar. Até porque, como definiu Le Matzenbacher, "o nosso ócio é transformar letras em cifras". (Sejamos honestos: devo renunciar à literatura e esperar por um emprego de redator em uma agência de publicidade?)
O negócio é o seguinte: a maior parte do que hoje classificamos como "arte" é pura chatice, disparate, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Por isso, para muitos especialistas, o aspecto mais importante da arte pós-contemporânea vem a ser o da técnica de sentar-se em silêncio. "Não se trata de desistir da arte, mas da desistência como meio de fazer arte", explica o ex-artista Cardoso, certo de que "vivo ou void" jamais deixará de ser um poeta morto.
Portanto, se você é um artista antenado, e tá a fim de alguma experiência divertida, saiba que corre o risco de ser enfiado numa camisa-de-força até que consiga publicar um longo e confuso ensaio sobre o assunto. (Ou descolar um patrocínio, como diria Paulo Leminski.)
Ah, desprevenido leitor, devo confessar que se eu fosse um ex-artista, como o Cardoso, usaria este espaço para uma boa aula de embromação. Entretanto, observe o meu caso: na condição de pós-jornalista, fui encarregado de produzir um conteúdo bacana acerca das atuais incertezas da arte; mas, ao consultar os especialistas, travei no seguinte dilema: "O silêncio ou o suicídio?" Então, resolvi ligar para os sete mais antenados, e cheguei à seguinte conclusão: sob o ponto de vista simbólico da alma, eu diria que o atual estado da arte pós-contemporânea é o da "pós-orgia". Agora, preste atenção, sob o ponto de vista concreto do meu incrível "pau-brasil", eu não relutaria em afirmar que é o da Poesia Totalitária.
A pós-orgia
"O suicídio é uma vocação", disse Fabiano Gummo. Quando menino, toda profissão real me parecia um túmulo: Zeca Camargo, Beto Brant e Sérgius Gonzaga. Calma, vou explicar. É que um dia eu me liguei que a tendência ao celibato literário entre os jovens da minha geração era, de fato, irreversível. Assim, optei pela rima, e acabei escrevendo um livro de poesias, intitulado Nenhuma Poesia: uma referência ao livro do Carlos Drummond, Alguma Poesia. Na época, eu desenvolvia "poemas conceituais", e alguns amigos me consideravam revolucionário, futurista e vanguardista. Por isso, decidi que o meu livro não teria páginas: só capa. Veja isso, sem páginas, só capa! Sacou? Pois bem, essa foi a minha orgia.
Por mais ridículo que pareça, esse tipo de coisa realmente existiu como tendência na arte pré-totalitária. Mas hoje, depois do momento explosivo da minha modernidade, sou obrigado a desistir da minha vocação, pois já não consigo esconder o desespero ao reconhecer a minha própria incapacidade de me comunicar. Quer dizer, agora que "liberou geral", chego à conclusão de que nada do que descobri era verdadeiro, e por isso pretendo submergir lentamente em uma linguagem enigmática cada vez mais incompreensível.
O fim da arte
Se a missão do artista é despertar, só agora compreendo o que Marcel Duchamp fez, não apenas pela vida, mas pela linguagem: "O pior inimigo da arte é o gosto", ele disse, e tudo o que era belo desmoronou. Para mim, a grande sacada de Duchamp foi a idéia de que não precisamos de tintas nem de palavras para criar ou disseminar arte. "Se como dizem os artistas, somos suscetíveis às obras, por que então não conseguimos impregnar nossas vidas com a beleza que delas emana?", desafia o publicitário britânico Stewart Home.
Seja como for, são sempre os idiotas que se revoltam contra a formalidade; nunca os intelectuais. (Cala a boca, merda analfabeta!) Por isso, sobre Duchamp, basta dizer que a arte pós-contemporânea, de fato, tudo lhe deve. Segundo o advogado Roberto Bocajão, até hoje ninguém o superou em originalidade e ousadia: "Enquanto todos se empenhavam em dar arte à vida, Duchamp insuflava a vida de arte." É só dar uma olhada na mais emblemática de suas obras, a Fonte, de 1917: um exuberante urinol que ele simplesmente arrancou do banheiro e depositou no museu. Arte? Não, anti-arte: "Com esse trabalho, Duchamp de um só golpe sufocou a voz de todas as gerações que o sucederam", argumenta Bocajão.
Tá certo, seu Bocajão. Mas o senhor deve saber que quando o artista sufoca sua voz, a história perde o sentido, e a ameaça da castidade intelectual irrompe como uma nova e terrível aurora nas consciências humanas. "A arte civilizada sempre foi elitista e manipuladora, e por isso Duchamp resolveu matá-la, para que a autêntica arte fosse preservada: a vida", contra-argumenta o advogado. Uau! Au-au! Miau!
A arte do fim
Oh, sincero leitor, saiba que eu já fui enganado por John Lennon, por Lula, e também por Luis Antônio de Assis Brasil. E digo mais: só Andy Kaufman não me engrupiu com a idéia de que a arte não é puro blablablá: "Se vivemos numa pós-cultura, ou seja, uma cultura vinculada a todo tipo de superação pós-orgiástica, o que a arte pós-contemporânea faz, ao designar a si mesmo como pós, é reivindicar a própria independência em relação ao ser humano”, esclarece Tony Clifton, pós-pesquisador da Universidade Federal. Sacou? Nem eu. (Calma, é que isso envolve um pouco de lógica que às vezes é da alçada do palhaço.)
Segura, vou tentar explicar. Você já ouviu falar em Andy Warhol? (Aquele desordeiro que roubou o logo dos Stones.) Pois então, depois dele, tudo o que era lixo virou arte, e qualquer absurdo passou a ser permitido. Segundo Clifton, "enquanto Duchamp optou pelo silêncio, Warhol escolheu o suicídio". A partir de sua obra Brillo Box, de 1964, uma réplica em papelão das embalagens de um detergente, os artistas passaram a incorporar em seus trabalhos as chamadas "matérias-primas do quotidiano". Com isso, rolou uma proliferação anárquica de estilos, acabando por revelar uma completa inexistência de critérios que pudessem dizer o que era, e o que não era arte.
O lance é que depois de Warhol a qualidade deixou de ser uma questão de gosto, e passou a ser uma questão de conceito: "O que morreu não foi a obra de arte", observa Clifton, "mas a possibilidade de explicá-la." A partir daqui, meu caro, só a filosofia poderia nos mostrar qual o sentido de todo esse engano denominado arte pós-contemporânea. (Querido diário underground: sei que estou ficando repetitivo e contraditório à medida que critico isso ou aquilo. Por isso, encerro aqui.)
Jogando pingue-pongue com o abismo
(Terminar? Mas agora era o momento de explicar! Explicar! Calma, vou explicar? Explicar e explicar! Vou? Vonvon, explicar.) Parece claro, portanto, que a principal característica da arte atual seja o fim da separação entre as funções "críticas" e "criadoras", a ponto de já não se poder falar dessas duas áreas isoladas uma da outra. Na verdade, o que rola por trás de toda essa discussão é uma descrença generalizada na capacidade de qualquer linguagem (principalmente a jornalística, ui!) de produzir verdades acerca do mundo.
Assim, em relação às incertezas da arte, é notável o grau de consenso quanto ao fato de já não haver qualquer possibilidade de consenso. (O Belo deixa de ser belo quando é belo para todos.) "O que é peculiar ao artista pós-contemporâneo", argumenta Fulano de Tal, "é o desejo de produzir aquilo que não pode ser apreendido, representado e comunicado", isto é, o desejo identificado por Paulo Coelho como "diufvsv vi ieissif, pé pé pé pum". Portanto, respeitável leitor, não fique desnorteado e triste ao entrar em uma Bienal. Agora você já sabe: tudo aquilo não passa de escombros de uma arte que se masturba com a própria frustração.
(Aaaaaaaaa!) De acordo com Fulano de Tal, "ao considerar o caráter autodestrutivo da arte atual, o crítico acabou absorvendo esse mesmo complexo de auto-anulação, diluindo arte e filosofia num emaranhado teórico que cada vez mais enaltece a si mesmo", e complementa: "Trata-se de uma autoderrota engrandecedora". Conclusão: é melhor mascar chiclete o tempo inteiro do que falar qualquer coisa. Olé! Enfim, caro leitor, depois de muito penar, devo oferecer minhas considerações finais sobre o assunto: "O artista tornou-se filósofo, o filósofo tornou-se poeta, a filosofia venceu a arte, e o roquenrol vencerá a filosofia!" (Será que falta alguma coisa? Bem, amanhã começarei minha pesquisa sobre o pessimismo.)
Na prática, a poesia é outra
Meu Deus! Quanta morte, quanta desilusão, quanta ânsia sufocada! Nada mais que crises, espelhos e perplexidades. Estremecem os alicerces da arte pós-contemporânea, e o ar parece estar cheio de mistérios sobre a sua derrocada final. Teremos chegado ao fundo do poço? Não, creio que não... (It's good to be back, let's have another cigarette!) "O dia da linguagem universal há de chegar, e essa linguagem falará de pele para pele, resumindo todos perfumes, apagando todos os pensamentos", poetizou o profeta Arthur Rimbaud. Eis a Poesia Totalitária!
Não, não se trata de anunciar o surgimento de um novo movimento estético. Isso serviria apenas como distração para esses assexuados artífices das simbologias exaustas. O que a Poesia Totalitária propõe, na verdade, é a união entre sexo e arte, ou seja, a cura do ferimento mortal. Ah, sonolento leitor, acorde! O que morreu não foi a arte, foi o homem! E por isso é que a Poesia Totalitária não propõe uma reforma na arte, mas na metodologia de percepção da vida, de modo que através do "estrategismo sexual", a performance de cada indivíduo se transforme na única e autêntica Arte possível: a erótica, pornográfica e espetacular volta ao ventre materno!
Estamos entendidos? Ainda não? (É por essas e outras que a Poesia Totalitária não cogita a comunicação verbal.) Olá! Beijos e abraços! Na próxima, falarei sobre Marketing Poético, outra janela aberta para um mundo infinitamente mais divertido que a cansada linguagem dos signos artísticos.
caráio! que puta gostosa! só não entendi as legendas das fotos.
Mas óh, tá jóia esse manifesto. Quero aderir a este movimento parado.
Posted by: Lucas Bender | 07/29/2011 at 06:02 PM
puta é tua mãe!
Posted by: anonimo | 12/08/2012 at 09:40 AM
Vou comer esta Chimia. Gostosa, Tem aqui o Pau Brasil. Vou te dar um esfrega, me mande e-mal Gostosa.
Posted by: Don Juan | 01/05/2013 at 05:04 AM