Cada estrela é um deus; e cada espaço que ocupa, um diabo.
Mas a plenitude-vácuo do Todo é a mandala.
Quatro é o número das medidas do mundo.
O primeiro é o começo, o Deus-Sol.
O segundo, Eros, que une os extremos e se expande em luz.
O terceiro, a Árvore da Vida, que ocupa o espaço com formas corpóreas.
O quarto é o Diabo, que abre tudo o que se encontra fechado;
é o destruidor em que tudo é reduzido ao Nada.
Há um provérbio oriental que diz que o dedo mostra a lua,
e que o idiota olha o dedo.
Mas, afinal, qual é o medo de olhar o dedo?
O dedo passeia no céu, e transmuta-se em si mesmo o tempo todo;
e assim, os orientais convidam os homens a gozar o mundo
em toda a sua mutabilidade vital.
Em outras palavras, para o oriental,
as substâncias e os acontecimentos encontram-se
numa perpétua transformação,
cada um deles exprimindo uma face não-eliminável
e complementar dos fenômenos.
Mas o curioso é que a única coisa no mundo que foge a esta regra
é a própria cabeça dos orientais, ou melhor, o dedo.
Por isso, as mandalas ocidentais vêm sempre acompanhadas
de uma estranha tensão mental,
desconhecida entre os orientais.
Uma espécie de vácuo ativo, vazio seminal,
que é a essência mesma do humano, negligenciada aos animais.
Disse Niels Bohr: "O oposto de uma afirmação correta
é uma afirmação falsa,
mas o oposto de uma verdade profunda
pode muito bem ser outra verdade profunda".
Quanto a mim, prefiro o dom precioso da dúvida,
uma vez que não lesa a virgindade
dos fenômenos incomensuráveis.
Antes de mais nada, é bom lembrar que na doutrina Zen,
quando o discípulo começa a sofismar com demasiada sutileza,
os mestres o presenteiam com um belo soco nos cornos.
Não para puni-lo, mas porque o bofetão significa
"a tomada de contato com a vida, sobre a qual não se deve raciocinar".
Ou seja, como diz o retro-marqueteiro Joõo Mognon,
"existe verdadeiramente o inexprimível,
e ele se mostra; é a mandala".
Portanto, tomemos a bofetada na cara do mestre Zen,
e fixemos a atenção no olhar do sofista sutil: "Eu vejo uma mandala".
(Enfim, mandalas e sofistas:
divindades que aceitam com alegria o "mutável",
mas ao mesmo tempo recusam as leis que o imobilizam,
redefinindo-o sempre através de uma triste
festa de marketing e provisoriedade.)
O Nada equivale à plenitude.
No infinito, o pleno não é melhor que o vácuo.
O Nada é, ao mesmo tempo, vácuo e plenitude.
Dele se pode dizer tudo o que se quiser;
por exemplo, que é branco, ou preto, ou então que existe, ou não.
Uma coisa infinita e eterna não possui qualidades,
pois tem todas as qualidades.
Tudo o que não distinguimos mergulha no vácuo,
e se anula pela antinomia.
Se, portanto, não distinguimos Deus,
a plenitude efetiva se extingue para nós.
A individualidade leva ao isolamento.
O isolamento se opõe à comunhão.
Comunhão é profundeza.
Isolamento é elevação.
A comunhão nos dá calor; o isolamento, luz.
Mas por causa da fraqueza do homem contra os deuses e os demônios,
a comunhão é necessária.
Portanto, deve haver tanta comunhão quanto for preciso,
mas não por causa do homem,
e sim por causa dos deuses.
Os deuses forçam o homem à comunhão.
E quanto mais o forçarem, maior será a necessidade de comunhão,
maior o mal.
Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças.
Sou o mais feliz dos homens vivos.
Há um ano, eu pensava ser um poeta.
Hoje não penso mais nisso.
Com as mandalas, tudo quanto era literatura se desprendeu de mim.
E já não há mais poemas a escrever,
graças a Deus.
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